Especial Michael Mann
Mais tarde Michael Mann trabalhou em inúmeros projectos, até chegar a The Keep (1983). O realizador tentou misturar vários elementos como o terror, fantasia, assim como um contexto político subliminar. Esta obra é uma adaptação de um livro de F. Paul Wilson sobre uma força sobrenatural dentro de uma fortaleza Nazi. Apesar de querer passar uma mensagem diferente, Mann viu o seu filme a ser posto de lado pela crítica e público, uma vez que o seu trabalho voltava a não encontrar comercialidade.
No entanto, Mann não estava de todo fora do baralho. Apesar do seu insucesso comercial no cinema, os seus serviços eram extenuantemente requeridos para o pequeno ecrã. Em 1984, Michael Mann envolveu-se como produtor executivo no drama de acção policial Miami Vice (1984-1989) e revolucionou para sempre a história da televisão. Com Don Johnson e Phillip Michael Thomas no papel de detectives James Crockett e Ricardo Tubbs respectivamente, Mann imprimiu a velocidade e ritmos necessários a uma série que se tornou um fenómeno cultural direccionado principalmente à emergente geração MTV. Os fatos Armani, as camisas coloridas, os carros desportivos, o ambiente quente de Miami, a banda sonora, imortalizaram para sempre esta série e, inclusivamente, definiram padrões de moda e cultura que se tornaram referências dos anos 80. Apesar de Mann não assinar a criação da série, está eternamente associado como o principal influenciador da sua estética visual, e principalmente pela aproximação cinematográfica que esta apresenta.
Ao mesmo tempo que se vivia o sucesso de Miami Vice, Michael Mann trabalhava já noutra série de carácter policial. Crime Story (1986-1988), passado nos anos 60 em Chicago e Las Vegas, era sobre a guerra entre um detective e um mafioso, que tinha como protagonistas Dennis Farina no papel do detective Mike Torello, e Anthony Dennison no papel de chefe da máfia Ray Luca. A série era um desfile visual de carros, arquitectura e moda, que contava com o sucesso musical ‘Runaway’ de Del Shannon como tema principal, aparições de Miles Davis a tocar num bar, e ‘cameos’ de actores como Julia Roberts, Kevin Spacey, e até um episódio piloto realizado por Abel Ferrara. Apesar do sucesso de crítica, nunca chegou a atingir o índice de popularidade de Miami Vice.
Por altura do início de Crime Story, Michael Mann realizava o seu terceiro filme, a adaptação do romance de Thomas Harris, ‘The Red Dragon’. O filme intitulado Manhunter (1986) foi a primeira aparição oficial do personagem Hannibal Lecter, mais tarde imortalizado pela performance de Anthony Hopkins no filme de Jonathan Demme, The Silence of The Lambs (1991), também adaptado de uma obra de Thomas Harris com o mesmo nome, neste caso a segunda acerca do personagem canibal. O romance de Thomas Harris, ‘The Red Dragon’, voltou a ser adaptado em 2002 por Brett Ratner, na dita trilogia ‘oficial’ do personagem de Hannibal Lecter, sendo interpretado pela terceira vez consecutiva por Anthony Hopkins, depois de ter protagonizado também Hannibal (2001), de Ridley Scott. Michael Mann recebeu elogios pela sua qualidade técnica notória, e o seu filme foi considerado algo mais que um filme de serial killers, ao verificar-se interesse em outros sectores que não apenas o assassino, tais como a construção e interpretação de imagens que suscitaram comparações com Peeping Tom (1960), de Michael Powell.
Os anos 80 e inícios de 90 foram divididos entre o envolvimento de Michael Mann tanto na televisão como no cinema. Em 1989 realiza o telefilme L.A. Takedown e produziu a mini-série Drug Wars: The Camarena Story (1990). Em 1992 Michael Mann co-escreve e realiza uma adaptação do clássico literário The Last of the Mohicans escrito por James Fenimore Cooper. O filme com o mesmo nome da obra literária, é um épico que veio trazer uma mudança significativa ao trabalho de Mann, sem no entanto deixarem de estar presentes as suas habituais opções estéticas e a sua forte estilização. Os cenários, assim como as batalhas de setas em vez de balas, continuam a deixar a atmosfera criada nos seus filmes anteriores, provando que Mann deixava a sua presença bem vincada.
Michael Mann parecia estabelecer-se finalmente no cinema e afastar-se cada vez mais das produções televisivas. Este entrar e sair constante do cinema para a televisão, e vice-versa, parece levar a duas pequenas elações: Michael tinha sucesso no pequeno ecrã mas a sua paixão era o cinema, ou sentia uma grande necessidade de aumentar a longevidade das histórias que contava nos seus argumentos de formato episódico para algo muito mais desenvolvido. Prova disso é a realização de Heat (1995), sendo este uma espécie de ‘remake’ do seu telefime L.A. Takedown (1989) com uma duração de 97 minutos, para a duração de Heat de 171 minutos, ou, mais tarde, a adaptação da série de Miami Vice para a longa-metragem de mesmo nome em 2006, realizada por si mesmo.
Heat (1995) foi a prova de excelência de Michael Mann. Se quisermos encontrar um filme de Mann em que todo o seu talento, estilização, estética, direcção de actores, argumento, e realização se complementam, este é sem dúvida a sua maior referência. Com um leque de actores invejável como, Robert DeNiro, Al Pacino, Val Kilmer, Ashley Judd, Tom Sizemore, Jon Voight, Dennis Haysbert, William Fichtner, Diane Verona, Ted Levine, e uma jovem Natalie Portman, Heat tornou-se num dos clássicos de acção dos anos 90, onde o argumento é digno de um episódio de Tom & Jerry de formato adulto, violento, e altamente bem concebido. Uma história digna da estrutura da introdução, desenvolvimento e conclusão, onde se destacam essas três partes importantíssimas do filme: a emboscada, a batalha entre polícias e ladrões nas ruas de Los Angeles, e o clímax entre DeNiro e Pacino, que sela completamente a ‘fome’ de confronto entre os dois. A nível técnico Mann começa aqui a utilizar uma das suas características mais fortes, os planos de câmara móveis que proporcionam a sensação de maior intensidade e adrenalina, principalmente nas sequências de acção. A nível de argumento os diálogos são intensos (de referir a conversa entre DeNiro e Pacino no café), e a construção dos personagens é intocável, especialmente na humanização de Neil McCauley (DeNiro) e no descontrolo de Vincent Hanna (Pacino). É um verdadeiro exercício técnico, de estilo, de realismo, e de qualidade, que certamente define Mann como um dos melhores realizadores da década de 90, e mais influentes no novo milénio.
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