Delorean apresenta: «Midnight Express» [1978]

Midnight Express [1978], conhecido no nosso país como Expresso da Meia-Noite, é uma película adaptada do livro autobiográfico de Billy Hayes com a colaboração de William Hoffer. A obra relata as experiências de Billy Hayes em consequência da sua prisão em Istambul por posse e contrabando de haxixe, quando este se preparava para embarcar no avião de volta aos Estados Unidos da América. A adaptação ficou a cargo de Oliver Stone, e a realização nas mãos de Alan Parker, ambos indivíduos de pouco nome por esta altura. Stone tinha apenas dois títulos de pouca importância no seu currículo, e Parker tinha realizado previamente Bugsy Malone [1976] com uma pós Taxi Driver [1976], mas ainda assim muito jovem, Jodie Foster.
Fiel ao livro na essência do que se passou na Turquia, o filme reconta visualmente o conteúdo da obra e a assustadora experiência de Billy Hayes no tempo compreendido entre 1970 e 1975. Numa época marcada pelo recente fim da guerra do Vietname, pela subida de Richard Nixon ao cargo de presidente Americano, e pelo início do terrorismo aéreo, a segurança por todo o mundo apertava, principalmente nos aeroportos. Hayes, um jovem fruto da mentalidade rebelde e livre que assolava os E.U.A., decide arriscar e trazer consigo 2kg de haxixe como recordação de Istambul. Incapaz de conter o nervosismo acaba por comprometer a mercadoria e é apanhado pelas autoridades quanto tenta embarcar. Em pouco tempo é julgado segundo as leis turcas e condenado a 4 anos de prisão, calvário que nunca imaginou ter de cumprir. Dentro da prisão é tudo aquilo que se esperaria: espancamentos, agressões, condições desumanas, tráfico, etc. A esperança é a última a morrer, mas Hayes depara-se com uma possibilidade que questiona qualquer vontade de viver, e que porá a força do corpo e mente à prova.

O que à partida parece o típico filme de prisão, que inevitavelmente sofre comparações com o excelente Os Condenados de Shawshank [1994] e outros títulos do género, não é de todo algo da mesma ‘pilha’. Midnight Express é uma adaptação de um acontecimento verídico, que nos é exposto de uma forma crua e impressionante. A agressividade presente neste filme deve-se muito ao envolvimento emocional por parte de Alan Parker, e principalmente à interpretação especifica e pessoal que Stone deu à história de Billy Hayes. Oliver Stone, que viria a ser caracterizado pela sua forte e activa opinião política, desde cedo mostrava essa sua faceta de crítico social através do cinema. No entanto, Stone e Parker apenas atingem os objectivos quando nos presenteiam com um actor chamado Brad Davis. Davis foi o escolhido para personificar Billy Hayes, e transmitir ao espectador o sofrimento de que Hayes foi vítima. Diga-se que estamos perante umas das interpretações que vão para além de qualquer acontecimento real. Davis oferece-nos algo de uma sinceridade notável e de uma qualidade que apenas passou despercebido a Hollywood, ao não ter sido sequer nomeado para o Óscar de Melhor Actor Principal. A sua interpretação é desumana, suja, por vezes resistente a qualquer obstáculo, outras vezes tão real e marcante que fingimos não haver sintonia entre espectador e personagem apenas para protegermos a nossa sensibilidade.
Max (John Hurt) e Jimmy Booth (Randy Quaid), são os seus companheiros na prisão, e aquilo que Billy tem mais parecido com amigos. Aqui Parker e Stone conseguem sobressair os elementos apaziguadores do pesadelo da prisão. A amizade é algo cultivado entre estes três personagens, através da lealdade e camaradagem, providenciando um aroma de esperança no ar num meio caracterizado pelo cheiro a morte e desgraça. Hurt foi nomeado ao Óscar de Melhor Actor Secundário pela sua interpretação e dá-nos o lado desacreditado e conformado com a prisão, enquanto Randy Quaid é totalmente o oposto, representando a parte revoltada e constantemente em busca da liberdade. Davis é o meio-termo do trio, balanceando os humores e constantemente tomando as rédeas do elemento mais equilibrado dos três.

Contudo, um dos aspectos mais importantes de Midnight Express é a banda sonora. O compositor Giorgio Moroder oferece-nos uma experiência bastante diferente da que estamos habituados neste tipo de filme. A sua música é isenta de orquestra, fugindo da composição clássica de instrumentos e optando por uma abordagem completamente electrónica. Moroder é mais uma das razões pela qual esta obra é definitivamente diferente. O seu tema ‘Chase’ é algo completamente inovador para a época, transmitindo uma sensação de alienação característica da iminente era dos anos 80, e da onda de música apoiada na electrónica que se começava cada vez mais a verificar. Resumindo, a sua música estabeleceu um novo padrão, deu ritmo e contraste a um filme de género, contribuindo para a sua singularidade no contexto cinematográfico. O seu preponderante contributo rendeu-lhe um Óscar de Melhor Banda Sonora.
Apesar de tudo, Midnight Express não é perfeito. Numa entrevista em 2007 com o próprio Billy Hayes, este mostrava-se descontente com algum do conteúdo da versão cinematográfica da obra. Segundo Hayes, muito do que acontece no filme é exagerado, desproporcional, e péssimo para a imagem dos turcos aos olhos do mundo. Hayes atribui esses excessos a Oliver Stone e ao facto de achar que na altura, Stone ainda não tinha libertado a revolta e raiva para com os sistemas políticos e sociais, como fez posteriormente com Platoon [1986]. Contudo, grande parte do que se passou é real, simplesmente manipulado e dramatizado para fins cinematográficos.
Expresso da Meia-Noite é um excelente filme sobre o peso de desrespeitarmos as regras de algo que desconhecemos. É uma reflexão sobre a capacidade do ser humano em sofrer, sobre as razões que levam alguém a não desistir da vida, e sobretudo sobre a importância da reflexão moral nos castigos, para que não sejam cometidas injustiças no mundo.
NOTA:
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O MELHOR:
Brad Davis com uma interpretação soberba, quase sem falhas. A banda sonora de Giorgio Moroder. A intensidade do filme e o envolvimento pessoal com toda a história.
O PIOR:
Alguns factos pouco exactos ou completamente alterados. Uma cena ‘gay’ entre Hayes e outro recluso completamente fora de contexto. Algum ‘overacting’ por parte de determinados actores.
A FRASE:
‘For a nation of pigs, it sures is funny you don’t eat’em! Jesus Christ forgave the bastards, but I can’t! I hate! I hate you! I hate your nation! And I hate your people! And I fuck your sons and daughters because they’re pigs! You’re a pig! You’re all pigs.’ – Billy Hayes








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