Antevisão: «Tudo Pode Dar Certo»

O nome Woody Allen provoca reacções de todo o género. Uns veneram-no, outros detestam-no, e outros ainda lhe são indiferentes. A sua persona (a do judeu Nova-Iorquino neurótico, cínico e excessivamente intelectual) tem esse efeito nas pessoas. No entanto, até o cinéfilo mais anti-Woody Allen do mundo admitirá, certamente, que a segunda metade do século XX não faria sentido, para a sétima arte, sem o criador de obras tão brilhantes como Annie Hall, Manhattan ou Hannah e as Suas Irmãs. Os seus críticos argumentam que Allen é um cineasta que “já deu o que tinha a dar”, que estagnou nos anos 80, e que ainda não fez um ‘grande’ filme no século XXI. Os seus defensores contra-argumentam ao defender que Match Point é esse filme. Dê por onde der, a verdade é que, sempre que lança um novo filme, Woody Allen põe muita gente nervosa: uns ansiosos pela oportunidade de falar mal dele e outros pela crença e desejo de ser “desta” que o seu génio volte a atingir níveis estratosféricos.
Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works no seu título original), a sua 40ª longa-metragem, marca o regresso de Woody Allen aos EUA e à sua amada Manhattan, depois de um período (que apenas pode ser descrito como o seu período “Europeu”) de ausência de quase seis anos – o seu último filme filmado em território americano havia sido Melinda e Melinda (2004). Após essa produção mais ou menos falhada, filmou Match Point (2005), Scoop (2006) e O Sonho de Cassandra (2007) na Grã-Bretanha, e Vicky Cristina Barcelona (2008) em Espanha. Agora está de regresso ao país com que sempre manteve uma relação tempestuosa com uma comédia romântica ligeira e de consumo fácil.

De consumo fácil porque não parece abordar temas particularmente complexos. É a história de Boris Yellnikoff (Larry David), um excêntrico e misantropo professor de xadrez que, após o fracasso da sua carreira, casamento e tentativa de suicídio, passa os dias a insultar verbalmente as crianças a quem dá aulas e a levar os amigos à loucura com os seu devaneios acerca da inutilidade de tudo e mais alguma coisa. Pelo meio conhece uma jovem, bonita loira e sem-abrigo, de nome Melodie St. Ann Celestine (Evan Rachel Wood) que este deixa, relutantemente, ficar no seu apartamento. Na tradição das grandes personagens de Woody Allen, Boris considera-se o único que compreende a futilidade das aspirações do ser humano e o caos puro que é o Universo. Não é, portanto, uma pessoa particularmente bem-disposta e colorida.
Tal como vem acontecendo desde Hollywood Ending (2002), Allen usa outro actor para fazer de seu alter-ego. Se a escolha inspirada de Scarlett Johansson (a sua nova musa) em Scoop, que conseguiu encarnar na perfeição as neuroses da sua tal persona, foi algo que pareceu caído do céu, Larry David parece também fazer sentido. O co-criador de Seinfeld e Curb Your Enthusiasm possui um tipo de humor (negro, subtil, subliminar) que se assemelha em muitos aspectos ao de Allen, para além de pertencerem à mesma geração.
Não será arriscado presumir que Tudo Pode Dar Certo não será nenhuma pérola, nem que não virá a ser considerado propriamente dos melhores da carreira de um cineasta que começou a fazer filmes nos anos 60 e que já ganhou três Óscares. Não pelo facto da recepção por parte dos críticos não estar a ser a melhor, mas porque a história diz-nos que Woody Allen faz melhores filmes quando trabalha material com potencial dramático. Este Tudo Pode Dar Certo aparenta ser uma comédia convencional, do género de Hollywood Ending e Anything Else, ou seja, um filme que acabará um pouco esquecido quando um dia recordarmos a carreira deste marcante autor. Mas isso não quer dizer que não possa vir a ser 90 minutos divertidos no cinema. Há alternativas bastante piores nas salas portuguesas.
NOS CINEMAS A 4 DE FEVEREIRO

Pedro Ponte,
Boa ante-visão, no entanto discordo do ‘Hollywood Ending’. É uma excelente e divertida metáfora à chamada ‘branca’ artística. Não é uma referência do Allen, mas penso que tem muito mais que se lhe diga, do que apenas um filme ligeiro. =)
Cumprimentos*
Diogo,
Claro que qualquer filme de Woody Allen tem muito que se lhe diga. Mas concordarás que em comparação com a maioria da sua obra pode ser considerado “ligeiro”
Cumps *
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