Crítica: «Anticristo» – Um filme provocatório

Uma questão imperava na minha mente depois de ter visionado a nova obra de Lars von Trier. ‘Será isto uma obra-prima ou o exacto oposto?’. Não sabia o que tinha acabado de ver e ainda agora estou a tentar assimilar todos aqueles cem minutos de pura provocação. A verdade é que não tenho resposta à pergunta. Uma coisa é certa, trata-se sem dúvida de um óptimo filme, no entanto longe da profundidade de obras anteriores do realizador, de onde destaco um Ondas de Paixão (1996) ou um Dogville (2003).
Depois do rebuliço criado no último Festival de Cannes, cuja imprensa atacou sem parar Anticristo e onde, para surpresa de todos, acabou por sair com um prémio atribuído a Charlotte Gainsbourg, houve uma frase em particular que define todo a longa-metragem. Radu Mihaileanu, cineasta romeno, considerou-o o ‘filme mais misógino do maior cineasta do mundo’, e sim, esta é uma obra cuja moral é, pura e simplesmente, a de mostrar a natureza maléfica da mulher. Aliás, chega a quebrar barreiras neste campo, roçando o domínio do incómodo no espectador. Quanto a Lars von Trier ser o maior cineasta do mundo isso já é discutível e, acima de tudo, subjectivo.
A história é simples, ou pelo menos assim nos dá a entender a premissa. Um casal, na sequência do suicídio do seu filho, entra num período de luto demorado. A mãe desenvolve um padrão atípico na maneira de chorar a morte do seu filho. Neurótica, desesperada e apática, tenta ultrapassar esta fase da vida com o seu marido, psiquiatra de profissão, onde enfrenta os seus medos e receios. O seu maior medo é o Éden, a pequena cabana no meio de um bosque verde e sombrio, onde costumavam passar as férias com o seu filho e para onde ambos partem para uma estadia, cuja finalidade é curarem a mágoa de tão infeliz evento.

O que parece ser uma simples obra de cariz psicológico e enorme carga dramática, atinge um nível sombrio e de terror desmedido desde que o casal alcança o Éden. A partir daí tudo parece não fazer sentido, e é essa falta de sentido que guia a história. O que julgávamos normal e moralmente aceitável em termos éticos é posto em causa. Lars von Trier, que acabara de sair de um longa depressão antes de começar a rodagem deste filme, quer provocar, mas acima de tudo quer desafiar o espectador. Muito provavelmente todo o cariz de Anticristo seja resultante dessa depressão, baseado em devaneios psicológicos que vão ao encontro do provável sentido que tenta encontrar para o significado da vida. Segundo o próprio, o título do filme apenas foi dado por conveniência, pois desde os seus 12 anos que está para ler a obra de Nietzsche, não havendo, de modo algum, relação directa a este. Lars von Trier apenas achou que se adequava.
A cena inicial, dotada de uma beleza visual e sonora incrível, foi sem dúvida a melhor maneira de começar aquela viagem imagética. Aliás, tudo parece perfeito neste campo. As imagens são fantásticas e o ambiente perfeito. O Éden é exemplo disso. Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg resultam na perfeição, ela neurótica e depressiva, ele terapeuta e compreensivo, mas ambos anónimos como intenção de mostrar a generalidade da situação. Mas, no entanto, existem falhas. Estas encontram-se, a meu ver, a nível do argumento, que começa por se arrastar ao longo do filme, não alcançando o desenvolvimento pretendido. Chegamos a uma altura em que começa a ser demasiada a exploração do lado psicológico da personagem de Charlotte e o seu final parece-nos apressado, onde não me senti satisfeito com a ‘explicação’ dada por Lars von Trier, nem com o rumo catastrófico que este toma.
Anticristo é sem dúvida uma marca de qualidade na filmografia de Lars von Trier, mas não se encontra ao nível das obras anteriores do cineasta. No fim, sentimos que o único sentido que este pretendeu para o seu filme foi o de chocar e provocar. Sentimos que não há uma intenção óbvia em toda a sua história e a moral parece no mínimo pretensiosa, não sendo de todo condenável os partidos tomados por alguns críticos, nacionais e internacionais, relativamente à obra. É recomendável, mas altamente subjectiva na sua qualidade. No entanto, a longa-metragem no seu geral tem um enorme valor, nem que seja avaliando unicamente o seu nível estético. Mas, felizmente, nem só disso é feito um filme.
NOTA:
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O MELHOR:
A fotografia de Anthony Dod Mantle, os actores e o ambiente. Sem dúvida o Prólogo e a música fantástica de Tuva Semmingsen.
O PIOR:
O rumo que o argumento toma e o fundo unicamente provocatório de Lars von Trier. A raposa!
A FRASE:
‘Chaos Reigns’.

A raposa é de facto muito surreal, mas tem a sua razão de ser. E sim, a fotografia é magnífica.
Quanto ao filme é puramente subjectivo. Na verdade, quer se odeie o filme, quer se ame, o objectivo de Lars von Trier está cumprido! Era precisamente isso que ele queria.
Boas Tiago,
realmente é como dizes, concordo contigo. Quer se odeie quer se ame é preciso perceber o seu valor.
Abraço
A raposa já não tem credibilidade no filme, mas quando estava a ver o filme disseram: “olha o Bruno Aleixo!” e pronto, o “caos reinou”…
O filme tem o início e o fim mais bonito que já vi em algum filme! São sem dúvida os pontos altos do filme. Foi talvez dos filmes que até hoje mais me perturbou, mas valeu a pena.
Olá mi
Exacto, por acaso foi perspicaz a relação com o aleixo ! AHAH
O filme é perturbante mas tem momentos magníficos, e o inicio deixou-me boquiaberto admito-o.
Concordo com quase tudo que o Mário disse. No entanto, não me parece que tenham havido falhas no argumento. Penso que este é daqueles filmes em que o produto é o que é. Não consigo perceber aonde desenvolveria mais, ou onde mexia, etc. É daqueles filmes tão pessoais, que o temos de aceitar como vem. Ou gostamos ou não gostamos, daí ser difícil perceber se achamos o filme muito bom, ou o oposto. De minha parte, o interessante do filme é o lado catastrófico que este toma. Fiquei fascinado com a capacidade que o filme possui de repugnar o espectador. Com a exploração visual e a liberdade que hoje em dia desfrutamos, é difícil existirem coisas que ainda nos impressionem. Lars Von Trier conseguiu-o com este filme. De facto a parte psicológica arrasta-se um pouco, levando por vezes a que se olhe para o relógio. Contudo quando entra esse tal circuito catastrófico, o filme dinamiza colando o espectador ao ecrã, e explorando a violência gráfica ao máximo. Anticristo é um bom exercício cinematográfico. Peca apenas por se repartir demasiado, tipo 8/80. A primeira parte bastante psicológica, lenta, repetitiva. A segunda parte frenética, violenta, e gráfica. Parece até que vimos dois filmes distintos, e que o que acontece na primeira parte perde significado perante a segunda, e vice-versa. No entanto se o filme pretende passar essa mensagem de desorientação, de fragmentação, familiarizando-nos com o problema de destroço emocional dos personagens – e até mesmo do realizador – , então aí faz sentido. Bom filme do dinamarquês, e boa análise do Mário.
Abraço e cumprimentos*
Tive uma visão diferente deste filme, que me pareceu um importante ponto de virada na filmografia de Lars Von Trier, por ver nele uma mensagem de esperança e redenção que não havia anteriormente. Escrevi sobre ele em meu blog, inclusive (http://bit.ly/c0URch).
Gostei muito de seu site e o linkarei no meu blog, aguardo sua visita!
um abraço
Lamentavelmente ainda não vi o filme. O que é imperdoável, porque me considero fã de Von Trier. A violência e o grafismo não me assustam, sinceramente. E concordo, os filmes dele vão para além do estatuto de mero filme e não devem ser vistos e julgados de forma racional.
Gostei da crítica, Mário.
Cumps.
Parabéns pelo texto! Seria um pouco mais generoso com a classificação final, pois não creio que haja falhas no guião e que os simbolismos tenham sido bem tratados. A última cena é puro surrealismo. Estamos de acordo, contudo, quando achamos “Dogville” uma obra superior (para mim, o melhor filme de Lars von Trier e dos últimos tempos).
Abraço!
Olá
Como previ há sempre pontos de discordância (e concordância) em relação ao filme. Tal como dizia um critico do Público (apesar de eu achar superficial e pretensioso aquilo que escreveu acerca do filme), ‘anticristo’ é um filme para ser falado, e é muito interessante ver as diferentes opiniões que cada um tem acerca do mesmo, o que ajuda sem dúvida a uma maior elucidação. Obrigado e que venham mais opiniões
.
Grande abraço!
[...] do muito polémico Anticristo (ver aqui a crítica), Lars von Trier já prepara o seu próximo filme intitulado de Melancholia. Após o [...]
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