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Crítica: «New York, I Love You»

22 Fevereiro 2010 Visto 410 vezes Escrito por: Pedro Ponte 5 Comentários

Em 2006, 21 cineastas de todo o mundo (incluindo Gus Van Sant, Alfonso Cuarón, Olivier Assayas, Isabel Coixet, Walter Salles, os irmãos Coen, Tom Tykwer, Wes Craven, etc.) juntaram-se e fizeram magia acontecer. O desafio era simples mas ao mesmo tempo difícil: criar uma história, através de pequenas curtas sem relação aparente entre si, excepto serem todas rodadas em bairros parisienses, que, quando juntas, formassem uma homenagem, uma ode a Paris – a Cidade das Luzes e do Amor. O resultado foi uma obra (que passou um pouco ao lado do mundo do cinema) tremendamente artística, coerente e visualmente arrebatadora que me marcou imenso como cinéfilo.

Paris, Je T’aime foi o primeiro filme de uma série (que poderá ser intitulada de I Love You) de filmes colaborativos com uma cidade em particular e o Amor em geral como temas. E se Paris era uma escolha mais que óbvia para começar tal série, Nova Iorque teria obrigatoriamente de se seguir. New York, I Love You tem como objectivo conseguir exactamente o que o primeiro grupo de cineastas havia conseguido: retratar uma cidade marcadamente cosmopolita, os seus cidadãos e a forma como estes amam. Em dez segmentos, ou vinhetas, dez realizadores tentam captar a essência da Big Apple. Uns acabam por ser mais bem-sucedidos que outros, como seria de esperar, sendo que o resultado acaba por ser um misto de imagens lindíssimas, histórias interessantes, mas também muita confusão pelo meio.

New York, I Love You

A principal razão pela qual New York, I Love You não funciona tão bem como o seu antecessor é a sua abordagem à forma como as histórias se interligam. Em Paris, Je T’aime havia uma clara divisão entre os segmentos, devidamente identificados com o título (um bairro característico de Paris) e o respectivo realizador. Aqui a grande maioria desses mesmos segmentos nem título tem, são apenas distinguidos através do seu autor. Há uma aparente tentativa de fundir as divisões entre vinhetas de forma a que o filme corra sem paragens nem interrupções. O problema é que, para tal, recorrem a transições, usando personagens de cenas diferentes e fazendo-as cruzar-se com outras para transmitir uma ideia de inter-conectividade, o que falha redondamente.

Mas onde New York, I Love You desilude verdadeiramente é na falta de intimismo e alma da película, como um todo. Enquanto que as histórias de Paris, Je T’aime transbordavam de sentimento e intensidade, o que se nota aqui é uma forma muito ligeira e despreocupada de abordar o assunto. Talvez seja o reflexo da forma diferente de ver o Amor por parte de franceses e americanos, mas, para um filme dedicado a captar o Amor e o amor a uma cidade, não parece haver muito entusiasmo por parte dos intervenientes. Grande parte dos segmentos resumem-se a encontros casuais e namoricos banais (o que não pode ser considerado um tipo de Amor), e dos dez realizadores poucos dedicam o seu “tempo de antena” a desenvolver verdadeiramente as suas personagens e a criar retratos típicos de uma cidade tão reconhecível e integrante da cultura popular dos nossos dias como é Nova Iorque. Os que o fazem elevam o filme a um nível bem acima do mero mediano.

New York, I Love You

Das dez histórias, a de Shekhar Kapur destaca-se de longe como a mais interessante, melhor idealizada e mais marcante. Filmado com uma destreza e subtilismo lindíssimo pelo Indiano, é a história de uma ex-cantora (Julie Christie) que encontra um jovem funcionário (Shia LaBeouf) num velho hotel onde costumava ficar durante os seus dias de glória. É uma história trágica mas ao mesmo tempo fascinante que provoca e exige mais da parte do espectador, fazendo-o pensar e remetendo para o que Nova Iorque já foi, para a sua história, e não o que é.

Outros segmentos que ficam na retina incluem a dupla vinheta do Franco-Israelita Yvan Attal, em que um Ethan Hawke insistente e com muito paleio borboleteia uma indiferente Maggie Q e um casal (Chris Cooper e Robin Wright Penn) fuma um cigarro juntos no exterior de um restaurante, o de Mira Nair, que reflecte sobre as relações entre pessoas de diferentes religiões (com Natalie Portman e Irrfan Khan), o de Fatih Akin, sobre uma misteriosa emigrante (Qi Shu) que trabalha numa loja de ervas chinesas e as histórias contrastantes de Brett Ratner (com Olivia Thirlby e Anton Yelchin) e Joshua Marston (com Eli Wallach e Cloris Leachman) sobre o amor jovem e experiente, respectivamente. Como em qualquer antologia haverá sempre histórias que dirão mais a uns menos a outros, mas creio que serão sempre estas que terão maior impacto.

Em suma, penso que ainda assim há muito para se gostar em New York, I Love You. O que pode parecer um contra-senso, mas cada cena, nem que seja pelo talento de quem as filma e nelas actua, tem valor – artístico e técnico. Apenas tem-no mais como peças individuais de um puzzle do que o puzzle em si. A grande dificuldade neste tipo de filmes é fazer o espectador manter o interesse de curta para curta, mesmo que desfrute de uma e não tanto da seguinte, e evitar confundi-lo, algo no qual o belíssimo Paris, Je T’aime sucedeu com distinção. New York, I Love You fica a milhas dessa obra, deixando um quê de desilusão nos fãs do primeiro filme. Continua a ser, no entanto, um filme agradável de se ver e com imensa qualidade a nível de interpretações. Desiludiu-me, mas mantenho-me um apreciador deste conceito de cinema, aguardando ansiosamente o terceiro filme da série, que terá, ao que parece, Shanghai como cenário.

NOTA:

3 estrelas

O MELHOR:

Os segmentos de Shekhar Kapur e Yvan Attal. A música e a fotografia.

O PIOR:

As transições usadas entre segmentos e a confusão que daí resulta.

A FRASE:

Yeah, New York actresses – they drive you nuts.” – Mr. Riccoli

‘NEW YORK, I LOVE YOU’ ESTREOU EM PORTUGAL A 5 DE NOVEMBRO DE 2009

5 Comentários »

  • Tiago Ramos diz:

    Aos projectos encomendados a estes dez realizadores falta-lhes identidade. Isto porque se o pano de fundo é a cidade de Nova Iorque, o que encontramos é o anonimato de ruas e esquinas, a imensidão de prédios e automóveis, que poderiam existir em qualquer outra cidade do Mundo. Falta-lhe elementos próprios da cidade, falta o brilho da cidade que nunca dorme, falta chegar e dizer que isto sim é Nova Iorque. New York, I Love You desilude porque é um conjunto de curtas-metragens potencialmente interessantes, mas enclausuradas na sua visão própria, fechadas. O que se pedia aqui era uma maior abertura, uma identidade, uma Nova Iorque mágica e plural. 3*

  • Pedro Ponte diz:

    Sim Tiago, é muito resumidamente a minha opinião em relação a este filme.

  • Diogo Mendes-Pinto diz:

    Não percebo como se faz um filme deste tipo sobre Nova York e não se convida o Woody Allen.

  • Diogo Mendes-Pinto diz:

    Correcção: Não percebo como se faz um filme deste tipo sobre Nova York sem o Woody Allen. Nem devia ser lançado ;)

  • Pedro Ponte diz:

    Não podia concordar mais! :)

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