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Crítica: «Um Homem Singular» – A epifania de Tom Ford

22 Fevereiro 2010 Visto 1.467 vezes Escrito por: Mário Macedo 13 Comentários

Esperava com ansiedade a estreia do primeiro filme do famoso estilista Tom Ford. Desde há tempos que tenho seguido com atenção as suas tendências criativas e as suas parcerias nas campanhas que tem vindo a lançar, em especial com o enfant terrible da fotografia de moda, Terry Richardson. O seu estilo agrada-me e as suas provocações também. Quem o conhece já tem expectativa sobre o que encontrar, excelente direcção artística e uma atenção ao pormenor fulcral. Quem não o conhece mais sorte tem, pois tenderá a emergir na sublime história que Ford tem para nos contar.

Adaptado por Tom Ford e David Scearce da obra com o mesmo título do até então esquecido romancista americano (apesar de ter nascido em terras de sua majestade) Christopher Isherwood, esta é uma simples mas poderosa incursão à simplicidade da vida e à maneira como esta deve ser vivida (conclusão alcançada numa espécie de epifania), onde o sentido da vida pode ser ambíguo mas, ao mesmo tempo, claro. Passados oito meses da morte do seu companheiro de há 16 anos, George Falconer, professor de literatura numa universidade da Califórnia, vive o seu último dia de vida pois pretende cometer suicídio. Um luto mal aceite leva-o a repensar a vida e as sua consequências, mas tudo vai tomando um rumo subtil, onde nada nos é dado a entender de forma directa. Os hábitos diários da personagem incutem-lhe uma carga dramática insuportável, que nos leva a entender o enorme vazio que surgiu na sua vida. Este vazio vai sendo complementado com pequenas fugas ocasionais de rotina que lhe concedem uma certa ‘cor’ à sua realidade. E sim, este é um dos pontos fortes do filme.

A Single Man

Colin Firth é sem dúvida o ‘senhor’ de toda a película e este é, até ao momento, o papel da sua vida. Interpreta Falconer com uma rigidez tremenda, balanceando entre o desespero e a esperança de alguém que está prestes a desistir de viver. Os seus hábitos, as suas manias e o seu discurso, são do mais exímio que vi nos últimos tempo no cinema. Contudo, será errado menosprezar aqueles com quem contracena. Julianne Moore está, como nos tem vindo a habituar, fantástica, ou não fosse a cena do jantar um dos pontos fortes do filme, onde a sua personagem, juntamente com Firth, dançam num estado ébrio com nostalgia e depressão. Matthew Goode, aparição em flashbacks como companheiro de Falconer, é sólido no seu papel e Nicholas Hoult, e o ‘puto’ de Era uma vez um Rapaz é um estudante stalker. Também não podia faltar a menção ao fetiche de Ford, o modelo espanhol e recorrente nas suas campanhas publicitárias, Jon Kortajarena, que interpreta um dos encontros de Firth.

A técnica é outro dos pontos que se sobressai, sendo algo fresco e inovador, não fosse Ford um meticuloso por natureza. Toda a fotografia do filme e as alterações que esta vai sofrendo são o melhor exemplo de como ‘uma imagem vale mais do que mil palavras’. Seria estúpido e até mesmo cliché a explicação forçada, por meio de uma provável voz off, das sensações que o personagem sente em pequenos encontros casuais que lhe ajudam a preencher o vazio que este sente. Ford remeteu este assunto unicamente para o plano estético do filme, onde, na monotonia da sua rotina quase ‘sagrada’, filma em tons desnaturados, em que a cor parece inexistente e que é apenas inserida nesses pequenos momentos já referidos, nessas pequenas sensações que Falconer sente, através de uma explosão de cores a fazer lembrar os filmes da época de 60 (momento em que se insere a história), num estilo Technicolor. Estes pequenos pormenores ajudam-nos a entrar na mente de Falconer e a perceber o porquê dos seus actos. O único ponto que me incomodou foi alguma debilidade técnica nas transições de certos planos que pareciam forçadas, não conjugando de forma decente no seu total ao olho do espectador mais atento, numa mera formalidade na continuidade de planos. No entanto, são pormenores facilmente ultrapassáveis.

A Single Man

Claro está que outros dos pontos fulcrais da obra é, sem dúvida, o cuidado dado ao guarda-roupa e a toda a direcção artística do filme. Entre o rigorismo atendido aos pormenores da época, até aos pequenos toques de bom gosto, nada é descurado e percebe-se que toda a atmosfera está criada de forma harmoniosa. Até na escolha da própria casa em que o personagem vive, do famoso arquitecto John Lautner, foi dada uma atenção especial, pois, e segundo Ford, era preciso que esta fosse de madeira escura tendo em conta Falconer ser britânico.

Um Homem Singular é uma obra que já há muito não via numa sala de cinema, onde à mestria de Ford, que aqui consegue alcançar o que muitos realizadores mais experientes nunca conseguiram, se junta uma excelente escolha de actores e um argumento sublime, onde a simplicidade da história de Isherwood se eleva ao patamar de obra-prima cinematográfica, que nos ensina a viver e a aceitar a vida como ela nos é dada. Tom Ford arriscou e passou. Recomendadíssimo!

NOTA:

Photobucket

O MELHOR:

O ambiente, os actores e a fotografia.

O PIOR:

Nada de relevante, apenas uma certa ‘confusão’ em pequenos erros na continuação de planos.

A FRASE:

“If it’s going to be a world with no time for sentiment, Grant, it’s not a world that I want to live in.” – George Falconer

13 Comentários »

  • Tiago Ramos diz:

    Excelente, excelente filme! Não me surpreenderá se chegar ao final do ano como o meu preferido. Concordo com a crítica – muito bem escrita!
    Para mim o Óscar seria para Colin Firth! Soberbo, magnífico. Assim como a sublime Julianne Moore.
    Belo, poético e estilizado! 4.5*

  • Mário Macedo diz:

    Obrigado Tiago :D Sim o filme é excelente, e até agora tá em primeiro no meu top também. Apanhou-me de surpresa.

    Abraço

  • Flávio Gonçalves diz:

    Nunca esperei uma experiência tão gratificante. Atingiu-me até onde seria impossível. Fiquei abaladíssimo, num estado de êxtase intransponível em palavras (ainda que concorde com o teu texto de opinião). O melhor filme que já vi desde muito, muito tempo. Perfeito.

  • Mário Macedo diz:

    Concordo Flávio :D ! Obrigado pelo comentário.

    Abraço

  • Pedro Ponte diz:

    Excelente crítica, Mário! ;) Fiquei ainda com mais vontade de ver o filme!

  • Mário Macedo diz:

    Obrigado Pedro :D Recomendo-te vivamente, e espero que no fim partilhes da mesma opinião que eu! AHAH

    Abraço

  • Victor diz:

    …Adorei o filme e a sua crítica também. Só acho que a banda sonora não deve ser ignorada…porque é de um tremendo bom gosto e qualidade.

  • Mário Macedo diz:

    Victor, concordo plenamente. O som é sublime :D .

  • HMA diz:

    vi ontem o filme e continuo a não estar neste mundo.
    enquanto aguardava a chegada do filme à “província” (Coimbra), alimentava-me de leituras de algumas críticas e de uma quase ininterrupta (obsessão assumida) escuta da banda sonora, no receio de que as altas expectativas quase inevitavelmente saíssem defraudadas aquando do visionamento.
    Ora, para o grande bem, tal não aconteceu – bem pelo contrário. numa sala de cinema que contava apenas com a minha presença, Ford, Firth, Julianne, Korzeniowski e companhia proporcionaram-me uma das experiências cinematográficas mais tocantes, viscerais e singulares, daquelas que nos dão asas e nos deixam a pensar que no mundo há mundos que não são deste mundo. Isso e o inexpectável. o indizível que, filmado à beira do sublime, incendeia o desejo.

  • Primeiro trimestre de 2010: O Top 5 do Ante-Cinema diz:

    [...] UM HOMEM SINGULAR, de Tom Ford – Crítica de MÁRIO [...]

  • MS diz:

    Caros, um amigo meu, sabendo que não gostei deste filme, apontou-me esta página. Sempre fui tipo para respeitar as opiniões dos outros, mas, à boa maneira portuga, também gosto de pôr a minha, e de explicar porquê. O estilo deste filme é forçosamente artístico para ser artístico e a temática perde-se exactamente a meio para se focar no que não deve. Fica a crítica de um anónimo especialista cinematográfico, que escrevi na altura, no meu blog. Lamento o “estrangeiro”, mas são as regras do dito blog. Pode ser que alguém me explique onde errei na minha compreensão ou que possa converter alguém :)

    “Five years ago “Brokeback Mountain” was as crappy as they come, and only got media attention because of its subject. “Milk”, on the other hand, had cinematic quality, but unfortunately fell for the same gay clichés. Now, “A Single Man”, not being a crappy movie though, fails for two reasons, because it falls victim of the same sins of gay movies, and because of the visual inexperience of its director. As the end credits rolled I got the feeling (and my female companion also) that if we had seen exactly the same movie but with a straight character, it would have been considered by all a vulgar movie, which it was. The film tells the story of George, a school teacher who has just lost to a car crash his partner of 16 years. We see him through the course of one single day (with off course the traditional flashbacks to show the lovers), the day when he decides that he is going to kill himself. The first half of the movie (morning) is clearly the best. Little dialogue of day-to-day routine is entwined with artistic shots (clearly the acute eye of fashion designer Tom Ford as his best trait). But these are never subtle, always the fading away of sounds, the slow motion, the swelling violin music, the zoom in shot. Besides, it was overdone, all of a sudden these shots were everywhere until one had to say “enough already!”. A more experience director would be more restrained. And this is proved because the second half of the movie had none of these shots. And then it got stall, banal, average, and starts to focus not so much on him and more on the fact that he is gay, something that the beginning did not do. As the day reaches the end, and he struggles on whether to kill himself or not, and he relates to others, the movie gives nothing new to others of the genre. The best friend, ex-lover, Julianne Moore is great (oscar nomination would be acceptable) and is the best feature. The others, the student, the pick-up on the street, prove that gay cliché. How-come two men on the street need only to look at each other for one tenth of a second to know that they are gay, that they love each other and that they want to have sex? Not even with straight men this happens right away! The end also proves the lack of experience of the director. The images delivered (as they did on the whole movie one must say), but the voice off was totally unnecessary (as were numerous scenes in the movie, for example the telephone call he receives to know of the death). It reminded me of the original version of Blade Runner, we don’t need a voice telling us how the characters feel, the images are (or should) be enough. All in all Colin Firth had a good restrained performance (but please stop repeating that he is English, are you trying to justify his accent?), Tom Ford gave hints of a very good eye when he learns more his art, the 60s context was lavish and good, but please, just give gay man a chance to have a normal movie. His lover died. Ok. Nothing to do with sexual orientation. I was reminded of a review to “The Next Best Thing” by Roger Ebert where he says why should movies with homosexuals always treat the subject of homosexuality?, and gives the example of Wonder Boys as a good approach, Robert Downey Jr is gay but that doesn’t affect the story. I am just saying that you could make a movie about a gay man without dwelling on the fact that he is gay the entire movie. He is a person. He has lost a loved one. Work from that. “

  • Flávio Gonçalves diz:

    MS, o filme não é sobre a homossexualidade, ou o amor homossexual, ou os gays, ou whatsoever, como pretende sugerir com a citação que expressa. De facto, desilude-me que tenha interpretado dessa forma (e estranhamente o MS prende-se tanto, quase de forma obsessiva, com esse tema!), porque sempre pensei que a universalidade do tema tenha sido bem exaltada nesta obra-prima. Um Homem Singular é sobre viver a vida, a aprendizagem sensacionista (à maneira de Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa) do mundo, a revelação suprema da nossa existência e condição humana. Reflecte precisamente sobre isso. A sua concretização formal, “artística” como lhe chama, é absolutamente justificável, como este texto do Mário lhe indica, e bem. Pense.

  • Steve Graça diz:

    Caríssimo Mário Macedo,

    No meu comentário, no passado dia 18, à sua grande crítica deixada em “O Escritor Fantasma”, deixou-me um convite para ler a critica em ” Um Homem Singular”. Venho agradecer por isso, pois dotava-me de ignorância ao não ler as criticas de filmes menos actuais (se é que posso chamar assim), considerando a minha descoberta recente do “ante-cinema”.

    Como não podia deixar passar ao lado, esta critica mantém o que me começa a habituar (não nos pode habituar assim Mário): a excelência coberta por um olhar atento e pormenorizado em todos os sectores fundamentais de um filme. Nesta critica refiro-me, em especial, ao que escreveu “debilidade técnica nas transições de certos planos que pareciam forçados…”. Digo isto por ser algo tão pormenorizado que passa bastante ao lado de muitos (certamente não serei excepção num ou noutro caso), mas como escreveu, são pormenores facilmente ultrapassáveis, por toda a sua qualidade em geral. No entanto, recordando agora essa debilidade de algumas (poucas) transições de planos, questiono: não terá sido algo intencionado pelo Tom Ford? Acho que nunca saberemos a resposta verdadeira, nem mesmo questionando ao próprio realizador.

    O que posso dizer acerca do filme?

    Estreia atrás da câmara para Tom Ford. E que estreia. A reconstituição da época e um guarda-roupa inigualável marcam a transposição de Tom Ford enquanto estilista para Tom Ford entre a moda e a arte.

    Aliemos tudo isto à mestria de uma banda sonora que se revela o que não me lembro de ter assistido com tamanha perfeição e harmonia em todo o filme. Não chega? Parece que não. Uma interpretação única de Colin Firth parece não deixar fugir o óscar de melhor actor. Mas deixou (existe tanta, mas tanta coisa difícil de perceber). Desconhecia por completo que este actor, que me era indiferente pelas suas interpretações em comédias carentes, ocultava um talento soberbo. De facto sou mesmo da opinião que não são os actores que fazem o papel mas sim o papel que faz os actores. Este filme provou-me isso. Colin Firth teve a sua oportunidade e agarrou-a. Agarrou-a de uma forma que me marcou pelo (atrevo-me a dizer) perfeito equilibrio.

    O mais dificil era acordar. Acordar implicava viver. Viver para sentir seria recordar para esquecer o presente. As horas não passam. O dia não acaba. Mas de que serve acabar se outro começa? Mas dormir implica por vezes sonhar e sonhar faz-nos estar acordados. É assim para George Facolner.

    Espero que Tom Ford volte, mas ele sabe que não será fácil superar isto. Concordo plenamente com 4,5 Estrelas.

    Um abraço.

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