Crítica: «Robin Hood» – O regresso da dupla Scott e Crowe

A velha guarda parece estar a tomar conta dos ecrãs. Após Shutter Island de Martin Scorcese e The Ghost de Roman Polanski (que ainda não estreou em Portugal), eis que Ridley Scott surge novamente ao lado de Russell Crowe na produção de um filme. Após Gladiador, Sir Ridley decidiu trabalhar numa versão da célebre lenda Robin dos Bosques. A primeira impressão que se pode ter do filme é que, não sendo tanto um remake de uma das lendas mais favoritas do público em geral, este consiste mais num “Robin dos Bosques Begins”, se assim o podemos classificar. Trata-se de uma versão mais fiel a nível histórico do que a versão de 1991, com Kevin Costner e Morgan Freeman.
Uma das principais características de Scott é a criação de acção a uma escala verdadeiramente épica. Em Robin Hood, essa acção está presente, infelizmente, e demasiado idêntica a Gladiador, onde um renegado se torna o salvador de uma nação inteira. Russell Crowe tem o papel principal como Robin Longstride, um homem de meia idade endurecido no meio da batalha com os Cruzados do Rei Ricardo (Danny Huston). Trata-se de um homem honesto com simpatia pelos desfavorecidos, que luta para voltar a casa após a morte de Rei Ricardo numa violenta batalha num castelo francês, numa das melhores sequências de acção de todo o filme.

Mark Strong é Sir Godfrey, o vilão do filme, um nobre inglês que trai os seus compatriotas com uma aliança com os franceses. Strong tem-se evidenciado nos últimos tempos como um vilão de primeira categoria. O seu semblante forte e com pouca alegria, quando aliados a actuações que demonstram na perfeição a profundidade emocional do personagem, são uma combinação muito forte num filme cuja dicotomia “bem contra o mal” esteja fortemente vincada. Cate Blanchett surge como a viúva Lady Marion, uma donzela trabalhadora, com problemas com ladrões e de atenções amorosas indesejadas do Xerife de Nottingham (Matthew Macfayden) e outras mais desejadas.
Nota-se que foi dada bastante importância ao detalhe da filmagem e aos pormenores dos vários cenários, um aspecto muito positivo no filme. Os créditos finais, por exemplo, são uma verdadeira extensão da obra, com muita animação e que prendem o espectador à cadeira, fazendo-o desejar por mais, independentemente da qualidade exibida pelas mais de duas horas de filme. Este Robin não é tão defensor da filosofia “roubar aos ricos, para devolver aos pobres”, no entanto, mantém intactos o sentido de justiça contra a tirania e opressão.
Este não será um marco da história do cinema, no entanto não foi um fiasco total. Não teve o carácter épico transcendental de Gladiador, e o argumento ficou algo confuso com a tentativa de mesclar uma história anterior ao Robin Hood que ficou célebre. Outro dos problemas do argumento foi a falta de exploração emocional dos personagens, sendo que o exemplo mais flagrante são os três companheiros de Robin, onde as únicas informações que recolhemos acerca dos mesmos são o seu nome e o facto de que combatem lado a lado com o protagonista principal. Outro exemplo é a banalização da figura do Xerife de Nottingham. Scott devia ter reduzido o número de personagens que tinham intervenção na acção do filme e ter dedicado mais tempo a outros, contudo, não deixou de dar a luz da ribalta a Russell Crowe.

A história vale pela acção e pela ascensão de Robin ao estatuto de “lenda”, no entanto, o caminho percorrido para atingir esse ponto foi muito sinuoso e escorregadio, sem que Scott tenha acautelado determinados pormenores, sendo a fraca exploração dos personagens e consequentemente do potencial que a história oferecia o ponto mais débil de um filme que tinha tudo para assumir um carácter mais marcante do que Gladiador. O resultado foi a divisão da acção na criação da Magna Carta e o duplo papel que Lady Marion assume face a Robin. Ainda assim Robin Hood evita os pormenores das versões da Disney e de Errol Flynn, com Kevin Costner.
O grande problema do filme reside na expectativa criada. Todos assumimos que Robin Hood será o galante arqueiro, vários homens da floresta, um rei batalhador e virtualmente indestrutível, e o espírito de camaradagem de todos os que residiam na floresta de Sherwood. A versão de Ridley Scott possui indiscutivelmente todos estes elementos, embora apresentados de uma forma que não é fácil de reconhecer e identificar pelo comum espectador do cinema.
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NOTA:
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O MELHOR:
A interpretação de Mark Strong. Mais uma vez mostrou toda a sua classe no papel de vilão com uma actuação soberba. O detalhe aos pormenores visuais da paisagem e a tentativa de adicionar rigor histórico a uma das mais bonitas histórias de heróis que Hollywood já apresentou.
O PIOR:
É inevitável a comparação deste filme com Gladiador. A motivação é a mesma: o renegado que passa a salvador da pátria com o discurso de motivação das tropas. Russell Crowe como Robin Longstride estava demasiado parecido com Maximus Decimus. Quando um filme se parece demasiado com um anterior, fica-se sempre com a sensação que o realizador não evolui nos seus conceitos e pretende apenas espremer uma fórmula de sucesso até ao fim apenas com objectivos comerciais. Outro ponto contra: o filme é muito longo. A sua duração serviu apenas para tornar o argumento mais rebuscado.
A FRASE:
“Rise, and rise again. Until lambs become lions.” – Robin Hood
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