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Crítica: «Juventude em Revolta» – A revolta de Michael Cera!

15 Junho 2010 Visto 747 vezes Escrito por: Diogo Alçada Tavares 4 Comentários

Adaptado do romance Youth in Revolt: The Journals of Nick Twisp, de C. D. Payne, Juventude em Revolta (2009) é um invulgar ‘boy meets girl’ que vai além de uma simples comédia ou romance de adolescentes. O factor Michael Cera e o momento por qual o actor passa, são razões suficientes para se pensar que este é um filme descomplicado, leve, e fácil de ver. No entanto, e apesar de realmente ser agradável, Juventude em Revolta tem muito mais que se lhe diga.

Somos apresentados ao protagonista de forma caricata, definindo de imediato que estamos perante um adolescente no pico hormonal. Nick Twisp (Michael Cera), de nome estranho, é o típico miúdo rotulado de ‘nerd’ ou ‘geek’, sobredotado para os seus 16 anos e socialmente excluído. Nick gosta de Sinatra, Fellini, Godard e Belmondo. Interessa-se por literatura, arte, é um apreciador do cinema da Nouvelle Vague francesa, e vive fascinado com ícones de rebeldia, como John Dillinger e James Dean. Mas este é o seu pequeno e restrito mundo privado. Sonha em partilhá-lo com uma alma gémea, escondendo-o das pessoas mais próximas: a mãe (Jean Smart) promíscua e divorciada, o pai (Steve Buscemi) distante e em crise de meia-idade, e partilhando-o apenas com o seu melhor amigo Lefty (Erik Knudsen), um miúdo obcecado com a curvatura para a esquerda do seu pénis. Quando o namorado da sua mãe, Jerry (Zach Galifianakis), intruja um grupo de marinheiros, Nick vê-se obrigado a partir com Jerry e a sua mãe Estelle para fora da cidade durante uns tempos, sob ameaça de os marinheiros voltarem para prestar contas. O destino é um pequeno lago, onde Jerry possui uma roulotte velha e enferrujada. O que parecia ser uma escapadela de terror, torna-se o melhor momento na vida de Nick, quando este conhece Sheeni Saunders (Portia Doubleday), uma adolescente igualmente inteligente, e com interesses em comum. É precisamente a partir desta premissa que o filme se torna deveras interessante.

Youth in Revolt

A obra centra-se na sua totalidade em Michael Cera, sendo possivelmente a interpretação mais bem conseguida do actor. Porquê? Não fosse o trailer, e provavelmente estaria a ser protagonista de um ‘spoiler’, quando vos revelo que a personagem que Cera interpreta, tem um antagonista. François Dillinger é o alter-ego que Nick Twisp cria para poder superar os seus medos e limitações, e explodir com anos e anos de supressão e rebaixamento. O resultado é, no mínimo, genial. O estereótipo que Cera interpreta com Twisp, é de alguma forma aquilo que associamos à realidade do actor. Todos nós vemos Cera como o adolescente introvertido, que sonha em ser, por exemplo, Shia LaBeouf. No entanto, até agora, o que víamos era Michael Cera precisamente a reforçar essa identidade que lhe está rotulada, assim como o actor Jesse Eisenberg o faz. Estes dois quase se confundem. Com a criação de François Dillinger, interpretada também por Cera, o actor mostra-nos uma faceta completamente inesperada e absolutamente desconhecida pelo público. Dillinger é um ‘spit on your face’. Uma mistura da rebeldia que Twisp deseja ter, com o gosto pelas personagens livres da Nouvelle Vague e do cinema de Nicholas Ray (a influência de Rebel Without a Cause é óbvia), associado também à paixão que Sheeni nutre pela cultura francesa. Até poderíamos dizer que isto é um certo Michael Cera a mostrar a fibra de que é feito. É absolutamente incrível ver Cera contracenar Twisp com Dillinger, de forma tão distinta e perfeita.

A partir daqui, os problemas intensificam-se pois Twisp tem de lidar com um adversário de peso. Trent (Jonathan Bradford Wright), é uma espécie de namorado perfeito, que batalha de forma igualmente obcecada pelo coração de Sheeni. O derradeiro desafio à personagem de Cera começa, e pela primeira vez podemos notar, que estamos perante um filme que não é para adolescentes, mas sim sobre a adolescência. Os seus problemas menos graves do que aquilo que parecem, a tendência para exageros, e o sofrimento e crença no amor eterno e perfeito, são algumas das matérias que de forma disfarçada com o ritmo do filme, podemos encontrar. O mais interessante é podermos identificar-nos com todas essas características da adolescência, bastando para isso termos algum dia passado por eles e, sobretudo, termos atingido um nível de observação e maturidade que nos permita olhar para trás e rirmos de nós mesmos.

Youth in Revolt

O filme entra num turbilhão de acontecimentos, onde muitas vezes está presente o ‘nonsense’ tal como o estranho convívio que Twisp tem com o seu vizinho (Fred Willard), que cisma em ajudar imigrantes ilegais, ou os sinistros encontros com o irmão de Sheeni (Justin Long), um viciado em drogas alucinogénicas com especial prazer em drogar as pessoas sem estas saberem. É o culminar da loucura e obsessão pela perda da virgindade, traduzida no ‘split’ de personalidade de Twisp. O mundo passa a ser um local surrealista, cheio de situações improváveis mas nem por isso impossíveis. É a derradeira prova de que uma revolta, seja ela a revolta da Nouvelle Vague ou a revolta da juventude, proporciona mudanças radicais capazes de instaurar uma nova forma de olhar para cada indivíduo, escrever novos rumos na história do cinema, ou até ajudar a mudar a sociedade. No caso de Michael Cera, ajudou a mudar a forma como no futuro podemos vir a ver o seu trabalho e a sua pessoa.

Miguel Arteta, conhecido pelo seu trabalho em séries de culto como Sete Palmos de Terra (2001-2005), não fascina pela realização, e Gustin Nash sofre por apenas dar profundidade às personagens de Michael Cera. Portanto, e apesar de o filme ser sobre a revolução e outros temas interessantes, peca por ser demasiado subjectivo quanto a estes assuntos. Para qualquer espectador, este filme pode passar simplesmente como um ‘teen movie’ indie e estranho, ao invés do que parece ser pelo trailer: um filme ao estilo das comédias de Judd Apatow, para as massas bem mais atraente do que o resultado final que é Juventude em Revolta. Fica aqui a excelente homenagem às personagens irreverentes dos filmes de Nicholas Ray ou ao cinema da Nouvelle Vague, e um filme divertido, inteligente, que retrata o sonho de uma América em se tornar ‘larger than life’ como os personagens de ficção, mas que facilmente se perderá na memória por ‘parecer’ demasiado inocente.

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NOTA:

Photobucket

O MELHOR:

Obviamente Michael Cera, mais concretamente o seu alter-ego François Dillinger.

O PIOR:

Pouca profundidade dos personagens que rodeiam Cera. Ser um filme publicitado como uma comédia a roçar o ‘blockbuster’, pode atrai o factor desilusão ao espectador que não estiver preparado para um filme ‘indie’.

A FRASE:

‘I Want To Tickle Your Belly Button… From The Inside.’ – François Dillinger.

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NOS CINEMAS DESDE 20 DE MAIO DE 2010

4 Comentários »

  • Pedro Ponte diz:

    Boa crítica, Diogo! Como sempre.

    Concordo com quase tudo, especialmente o quão bem feita está a divisão entre as duas personalidades. Mas sinceramente, para mim a melhor parte do filme é a Portia Doubleday. Acho-a uma revelação autêntica, não só pela beleza mas pela interpretação irreverente e low key. Ou muito me engano ou será uma enorme estrela num futuro próximo.

    Abraço.

  • Diogo Alçada Tavares diz:

    Pedro,

    Obrigado pelo elogio =]. Concordo com o que disseste sobre a Portia Doubleday, pois também fiquei fascinado com a sua beleza e subtileza no filme. Foi injusto da minha parte não a ter incluído nas melhores partes, ou não ter dado a atenção que devia na critica. No entanto, continuo a dizer que Michael Cera parte tudo, quando para ser sincero é um actor que me irrita um bocado nos restantes filmes que faz. Portanto, e por ter sido algo que me surpreendeu tremendamente, considero-o o melhor do filme.

    Cumprimentos*

  • Pedro Ponte diz:

    Pois, confesso que também me irrita imensamente. =) E realmente aqui isso não acontece, um pouco à semelhança dos trailers de «Scott Pilgrim». Por isso percebe-se. De qualquer forma fica a achega, porque ela é realmente deslumbrante :)

    Cumps *

  • Fernando Ribeiro diz:

    Depois de ler a crítica fiquei com vontade de ver o filme. Shame on you Diogo :P

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