Hot! Crítica: «A Branca de Neve e o Caçador» – O lado negro da história

É a segunda adaptação de 2012 do clássico de cinema inspirado no conto dos irmãos Grimm, numa altura em que as receitas da inovação parecem estar cada vez mais escassas e a reciclagem de histórias de outros tempos parece ser, cada vez mais, uma via fácil e economicamente viável. A primeira, Espelho Meu, Espelho Meu! Há Alguém Mais Gira do Que Eu?, numa onda mais cómica e leve, foi levada pouco a sério tanto pela crítica como pelo público em geral, tendo adquirido uma espécie de estatuto de «entretenimento barato», até à chegada da verdadeira adaptação, essa sim com elevadas expectativas, A Branca de Neve e o Caçador.

As premissas nem eram as mais favoráveis. Rupert Sanders é estreante na realização, tendo dedicado a sua carreira a campanhas publicitárias de videojogos; a história já é conhecida por quase todos e a responsabilidade de ‘reciclagem’ elevava a fasquia; o nome de Kristen Stewart no elenco fez muita gente torcer o nariz e hesitar no que toca a este projecto. Mas na realidade o resultado não foi assim tão mau. Sanders conseguiu brindar o público com uma história que não se limita a ser uma cópia da adaptação da Disney. É na verdade muito competente no seu trabalho, construindo uma história madura, muito mais obscura que a original (onde a protagonismo recai claramente sobre a Rainha Má), com uma imagem fantástica e alguns elementos bélicos.

O mais interessante do filme é o mesmo factor que me parece ter tornado este projecto desafiante. Não é tarefa simples adaptar um conto com elementos mágicos para o cinema “de carne e osso” – a concretização de um “espelho que fala”, por exemplo, é simples e encantadora num filme de animação mas parece descabida quando não é o caso. Era premente um cuidado com a forma como se transporia tais elementos, correndo o risco de a narrativa parecer forçada ou até ridícula. Surpreendentemente, esse foi um risco bem contornado. Não só não acontece, como a narrativa consegue fluir naturalmente e os elementos têm uma concretização equilibrada, onde a transposição para a realidade de símbolos tão importantes como o espelho, a floresta que ganha vida ou a maçã envenenada não impedem a fluidez nem retiram veracidade à trama.

Bem pelo contrário, esta versão da história apresenta uma realidade mais obscura do que aquela que faz parte do nosso imaginário, mas credível e bem construída. A base é a mesma, a Rainha Má, a delicada Branca de Neve, o célebre «espelho meu, espelho meu…», mas o conto amadureceu e perdeu a delicadeza, tem um cariz guerreiro, no qual os fantásticos efeitos visuais têm uma contribuição primordial. A concepção dos cenários, o realismo dos seres mágicos da floresta e a caracterização das personagens capacitam-nos a entrar no imaginário que se torna, ao longo de duas horas, bem real. A atenção ao detalhe e a criação do ambiente envolvente são de uma qualidade inegável. Para tal, contribuíram a participação de Collen Atwood, responsável pelo guarda-roupa e vencedora do Óscar por Alice no País das Maravilhas, e David Warren na direcção de arte (também responsável pelo mesmo departamento em A Invenção de Hugo).

A Branca de Neve e o Caçador só peca por pequenas falhas no enredo que não passarão despercebidas à maioria. Relações mal conseguidas e uma ou outra personagem mal explicada, numa trama onde o desfecho merecia uma maior atenção. Assistimos a algumas sequências, essencialmente no início da história, que se excedem na sua duração. Ainda assim, a expectativa do que estará para vir é remédio santo para aceitar de bom agrado esses momentos menos fulgurosos e por vezes entediantes – mas chegado o momento final, pouco acontece e a batalha final que antecede a chegada de Branca de Neve ao poder é feita quase em piloto automático. Mas parece-me que a componente estética e a magia associada ao conto são quase suficientes para ludibriar este factor menos positivo.

Quanto ao elenco, não será errado dizer que o filme é Charlize Theron. Esta é, aliás a afirmação mais justa. Theron agarra a sua personagem com tudo o que tem para dar à terrível Rainha, e prova disso é que, do início ao fim, encontramo-la a rosnar desenfreadamente, tirando todo o protagonismo a Kristen Stewart. E não, ainda não é desta que conhecemos uma Kristen Stewart diferente do habitual, na verdade é quase impossível não ver a Bella de Twilight do início ao fim, pouco expressiva, inocente. O curioso é que esse papel resulta na perfeição em Branca de Neve, delicada e com pouca atitude. Para além de Chris Hemsworth como caçador e um príncipe amorfo interpretado Sam Clafin, o elenco é rematado pelos oito (e não sete!) anões Ian McShane, Toby Jones, Bob Hoskins, Eddie Marsan, Nick Frost, Johnny Harris, Brian Gleeson e Ray Winstone, aos quais cabe trazer para cena os melhores momentos de humor, momentos que, ainda assim, mereciam ter maior continuidade e frequência.

A Branca de Neve e o Caçador é fiel à história clássica, aos quais Rupert Sanders adicionou um ou outro elemento extra. Um filme para passar um bom bocado em que o espectáculo visual está garantido e o reviver de uma história que marcou gerações levará certamente multidões a esboçar um sorriso quando confrontados com memórias simpáticas do conto infantil. É entretenimento puro.

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