Crítica: «A Fonte das Mulheres» – Coragem para fazer a diferença

La Source des Femmes – A Fonte das Mulheres é o novo filme de Radu Mihaileanu (O Concerto) e mais um dos do realizador que foge aos padrões do convencional, do que estamos habituados a ver nas salas de cinema. Não é uma grande produção, não conta com um grande orçamento, nem com uma campanha de marketing fenomenal. É um filme que se sustenta unicamente no guião, na história que quer contar – a história de uma aldeia com uma fonte, mas onde o amor já secou. O filme surge como uma lufada de ar fresco, com a sua abordagem dualística, com tanto de sério como de divertido, a um problema que tem tanto de velho como de actual, e que poucas vezes vemos retratado no cinema.

Numa qualquer aldeia islamita do globo, Leila, farta das consequências que a subida à única fonte de água traz para as mulheres, decide iniciar uma greve. Uma greve que visa privar os homens daquilo que acredita ser o único poder das mulheres sobre os mesmos: o amor. Lutando contra tudo e contra todos, Leila inicia uma verdadeira revolução no seio da sociedade onde vive, pondo homens contra mulheres, pais contra filhos e pondo em causa muitos dos dogmas do Islão.

Muitas formigas arrastam um leão, mas é difícil ser a primeiro formiga, aquela que toma a iniciativa. Mais do que ser um filme sobre homens e mulheres, sobre a natureza e diferenças dos dois sexos, A Fonte das Mulheres é um filme sobre coragem. A coragem de Leila para lutar contra uma sociedade estagnada, com fortes e velhas raízes arraigadas em princípios religiosos, tradições, usos e costumes seculares. Ser o herói, o que decide levantar os braços para combater injustiças, é uma posição ingrata, que acarreta várias consequências negativas, como Leila cedo se apercebe.

Apesar da seriedade do assunto retratado, e muito embora algumas cenas sejam verdadeiramente dramáticas e violentas, a condução da narrativa é sempre feita de uma forma leve, com bastante bom humor. Os momentos em que a Velha Espingarda intervém são quase sempre deliciosos, pela esperteza e palavreado da personagem, que põem qualquer um a rir. A actriz Biyouna muito contribui para este sentimento, representando a anciã de forma irrepreensível. Outro destaque são os grupos de mulheres, a falar desanuviadamente enquanto fazem as suas várias tarefas diárias, sem os homens por perto. As conversas que surgem destas interacções são maravilhosas, e é raro o momento em que não começam todas a cantar. A música é outro elemento que está também sempre presente: por vezes inspiradoras, outras vezes despretensiosas e engraçadas, e ainda, outras vezes, melancólicas. Tal como o filme, o uso das canções consegue um equilíbrio impressionante entre géneros: ora cómicas, ora dramáticas.

Leila, o marido Sami e a Velha Espingarda põem a aldeia em alvoroça. Os homens perguntam “O que vão fazer as mulheres quando tiverem uma máquina para lhes lavar a roupa?”, enquanto muitas mulheres desabafam “Odeio ser mulher”. A aldeia vive um período de enorme turbulência, que é também um período de grande mudança. Mudança a que não só homens, mas também muitas mulheres, tentam resistir. Mudança por que não só mulheres, mas também homens, lutam. Nada é preto e nada é branco. Sami é um dos grandes exemplos: apoia incondicionalmente a esposa, mas também ele, a certo ponto do filme, põe em causa as suas convicções e a sua insensatez.

Luta-se por mais direitos – pelos mesmos direitos, para homens e mulheres – e é interessante ver como o que faz a diferença, no final do filme, aquilo que tem um papel determinante a favor das mulheres, é o mesmo instrumento com que os homens tentam subjugá-las: o véu.

A Fonte das Mulheres é um filme imperdível, que não deixa ninguém indiferente, e que merece mais atenção do que aquela que tem recebido. Pela mensagem, pelas interpretações (de Leïla Bekhti e Biyouna, sobretudo) e pela actualidade dos temas, não percam.

Deixar uma resposta

O seu email não será publicado. Campos de preenchimento obrigatórios *