Crítica: «A Idade do Rock» – Uma experiência constrangedora

Rock of Ages – A Idade do Rock tem vários pontos a seu favor: um elenco repleto de estrelas e cheio de talento, um ambiente profícuo em histórias e lendas musicais e dezenas de temas memoráveis da década de 80. Material para construir uma trama coesa e divertida não faltava – ninguém esperava deparar-se com um guião capaz de granjear nomeações aos Óscares; exigia-se, simplesmente, uma experiência agradável, leve e fresca, de Verão.
Apesar de as expectativas não serem elevadas, a verdade é que há certos requisitos que não podem não ser cumpridos, mesmo por um filme como este, que estreia no meio de um calor abrasador, sem a pretensão de pôr o público a pensar e como única missão a de entreter. Ora, A Idade do Rock, de Adam Shankman, nem as exigências mínimas consegue satisfazer!
A história, de Chris D’Arienzo, gira à volta de um jovem casal que procura vingar no mundo da música, na Hollywood de 1987. O par, composto pelos novatos Diego Boneta e Julianne Hough, e o seu romance sem sal, raramente conseguem impor-se como os protagonistas do confuso enredo do filme. Contado através de diálogos previsíveis e momentos de fazer revirar os olhos aos melhores escritores de novelas mexicanas, o amor entre Drew e Sherrie não poderia falhar mais como atracção principal. Enquanto a novela entre estes dois decorre, com as peripécias e confusões que lhe são inerentes, Dennis tenta manter o seu estabelecimento, The Bourbon Room, a funcionar, com a ajuda da lenda do rock Stacee Jaxx.
A Idade do Rock consegue despertar alguma curiosidade em torno de Stacee Jaxx, bem interpretado por Tom Cruise, concedendo-lhe uma mística de decadência que, infelizmente, é mal aproveitada: a partir de metade do filme, tudo o que a personagem faz é perder-se de amores pela repórter interpretada por Malin Akerman, perdendo toda a sua (aparente) complexidade.
Ao longo de todo o filme, a sensação é a de que as várias personagens que compõem A Idade do Rock são meros moldes, prontos para se apaixonarem por esta ou aquela pessoa e para cantarem, aqui e ali, sem realmente terem uma personalidade bem definida e estruturada. As suas acções evocam as acções de várias outras personagens, de outros filmes, que estamos habituados a ver vezes e vezes sem conta, e não passam de réplicas destas, imitando a sua fórmula já tão gasta.
Para além disso, os vários núcleos de personagens não apresentam uma conexão relevante, limitando-se cada um a contar a sua história, sem qualquer tipo de união com os outros. Algumas personagens, aliás, nem uma história (por mais fraca que seja) para contar têm, como são o caso de Justice (Mary J. Blige) e Mike Whitmore (Bryan Cranston). O filme tem a pretensão de que as montagens de vários personagens a cantar ao mesmo tempo lhe confere coesão, quando é precisamente o contrário: é nesses instantes que nos apercebemos de quão dispersa, frágil e superficial é a trama.
As músicas são excelentes, sim, mas os covers muito pouco originais. Só Catherine Zeta-Jones, com a sua Patricia a cantar “Hit Me With Your Best Shot”, e o protagonista Diego Boneta, em vários momentos, conseguem ser formidáveis.
É impossível não considerar que a maior parte do elenco é subaproveitada. Tanto Bryan Cranston como Alec Baldwin, Paul Giamatii, Russell Brand e Mary J. Blige mereciam participações mais proeminentes. O filme teria beneficiado muito se contasse com um elenco mais reduzido e, consequentemente, com um número de histórias menor, evitando, assim, este mau aproveitamento das capacidades de quase todos os actores.
Outro aspecto em que A Idade do Rock peca é no retrato da sensualidade por detrás do mundo do rock. Em vez de parecer arrojado, como pretende, o filme cai redondamente no ridículo. Assim, de repente, vem-nos à memória a língua que entra sem pudor na orelha de Stacee Jaxx. Mas também a inusitada relação homossexual entre Dennis e Lonny pode servir de exemplo do pior que se faz para representar este sensualismo. A relação surge do nada e não é de todo credível, especialmente quando os dois, fãs hardcore de rock, donos de um bar, começam nele alegremente a cantar e a proclamar o seu amor.
A Idade do Rock é, em tudo, um filme superficial. Vive de algumas excelentes músicas dos anos oitenta, vive do brilho, das luzes e das danças, vive da beleza e do carisma dos seus actores e do (constrangedor) sensualismo que imprime à sua trama. Por trás desta fachada, apresenta uma intriga difusa e personagens rasas, desinteressantes, criadas para actuarem em certo momento musical, com pouca ou nenhuma criatividade.
