Crítica: «Cosmopolis» – Cronenberg, o anti-capitalista

cosmopolis

O ano passado, quando falava de Um Método Perigoso, aludia à mudança que a carreira de David Cronenberg havia sofrido nos últimos anos, afastando-se daquele cinema extremo e provocante do qual se tornara mestre. Para bem ou mal, torna-se cada vez mais óbvio que Cronenberg já disse efectivamente adeus ao ‘body horror’, às transformações, mutações e infecções, sempre exploradas pelo lado físico e pelo psicológico, pelo valor puramente visual e campy de uma cabeça a explodir mas também pelo medo que tão bem caracteriza o ser-humano. Se esta mudança desilude facilmente fãs do realizador canadiano (classifico-me, orgulhosamente, como um deles), é ao mesmo tempo prova inequívoca da sua versatilidade e complexidade enquanto cineasta, tendo construído uma carreira com mais de 40 anos que, como as suas personagens, se foi transformando, expandido e mudando com a passagem do tempo e do ambiente que a rodeia. Se Um Método Perigoso pareceu, de facto, mais um precalço que outra coisa, Cosmopolis chega como um ponto de ligação mais natural dentro da sua obra. Não é um “regresso” a seja o que for, apenas um resultado natural da tal transformação, qual mosca, que se tem vindo a verificar, em que umas coisas mudam e outras ficam iguais.

O que muda e o que fica igual, perguntam. Para começar, o tal medo que permeia toda a sua carreira. O foco principal de Cronenberg sempre foi o indivíduo, não a sociedade. Mas como estudar o primeiro sem abordar a segunda? Nunca, no seu cinema, essa dualidade foi tão óbvia como em Cosmopolis e, ao mesmo tempo, nunca foi a sociedade tão indissociável do indivíduo como neste filme. A personagem principal – e com Cronenberg há (quase) sempre uma única personagem à volta da qual tudo gira – é, para todos os efeitos, um ser-humano profundamente imperfeito e, por vezes, desprezível. Mas é também um produto óbvio da sociedade em que se insere, uma sociedade que coloca o capital acima de tudo o resto e arma os ricos com a capacidade assustadora de comprar tudo, ou quase tudo. A personagem de Robert Pattinson, Eric Packer, é, no fundo, apenas e só o reverso de uma única medalha, o resultado natural de um mundo em que o dinheiro, físico ou virtual, é o bem mais precioso. Ele passa grande parte do seu dia fechado dentro de uma limusina: usa-a para estudar o mercado, para fazer sexo ou receber um exame à próstada, enquanto do lado de fora ocorrem manifestações e desacatos (numa referência óbvia à recente “Occupy Wall Street”). Acabou de receber a notícia de que há uma iminente ameaça à sua vida, mas a sua principal preocupação para aquele dia, o mesmo dia durante o qual decorre toda a acção do filme, continua a ser cortar o cabelo. E não aceita que não possa cortar o cabelo, porque é o que quer fazer

Pelo meio, e porque pode, dá azo a uma série de divagações (todas saídas da mente de Don DeLillo) em que, à medida que encontra uma série de personagens (a sua noiva, o seu chefe de segurança, vários colaboradores profissionais, a guarda-costas com quem se envolve, etc.), conjectura e reflecte sobre tudo um pouco, do sexo ao capitalismo, passando por ratos e a moeda oficial da China. O filme é construído através de segmentos, de camadas, que obrigam Packer a sair finalmente da limusina e enfrentar o seu destino – ou seja o que for que o coloca na situação invulgar de não possuir qualquer tipo de controle sobre o que lhe acontece. Esta divisão favorece e prejudica o filme, conseguindo dar relevo às personagens secundárias (principalmente a última, interpretada pelo magnífico Paul Giamatti), mas quebrando também o ritmo num filme composto quase inteiramente por diálogo, que ainda assim se eleva quando Cronenberg lhe confere o seu cunho mais negro e incendiário. Cosmopolis é, na sua essência, uma espécie de manifesto anti-capitalista, uma reflecção sobre a era da informação, uma era quase darwiniana em que economias falam mais alto, em que o dinheiro é distribuido de forma errática, com resultados igualmente imprevisíveis. Uma era, também, em que a anarquia se assume como uma solução tão justificável como qualquer outra, patente na personagem de Mathieu Amalric, que reage face à injustiça e indecência com o acto inofensivo e ridículo de atirar uma tarte à cara de Packer.

É difícil classificar Cosmopolis ou estabelecer comparações a nível temático relativamente à obra de Cronenberg. É mais fácil fazê-lo pensando noutros filmes que tentaram o mesmo, isto é, usar a deambulação de um homem ao longo de um dia e explorar as consequências de uma mudança completa de ambiente – ao ver o filme lembrei-me instintivamente de dois filmes: Falling Down, de Joel Schumacher, e Edmond, de Stuart Gordon, ambos contados da perspectiva de um homem comum, vítima das injustiças da sociedade, que reage através da violência e da perversão. Aqui é o magnata, o responsável pela desgraça alheia (ou apenas o mais adaptável e oportunista), que sofre também ele as consequências das suas acções. Se é ou não esta a mensagem do filme, ou se possui sequer uma, é irrelevante, até porque Cronenberg não nos presenteia com uma conclusão propriamente dita, deixando-nos ser nós a escolher o destino de Packer. Uns escolherão a punição, outros a redenção – e essa ambiguidade serve na perfeição para perceber que o canadiano continua a ser um estudante da mente humana, repleta de lugares mais sórdidos e negros. E um manipulador, um bom manipulador, como qualquer grande realizador.

1 Comentário

  1. Gostei de tom de sátira do filme, da crítica à sociedade actual, individualista, em que cada um almeja à perfeição de si próprio, esquecendo que a imperfeição é o que nos torna humanos e permite viver. Viver é sermos vulneráveis, e o Eric Packer só começa a perceber isso quando a sua fortuna é reduzida a nada.

    Achei que a escolha do Pattinson, para representar esta personagem, poderia ser uma boa decisão – afinal, quem melhor que ele para transmitir a mensagem do filme? Mas é como dizes: o actor não beneficia em nada o filme.

    “Cosmopolis” tem falta de ritmo e, acima de tudo, tem falta de história. É mais mensagem, moral, do que história propriamente dita. Um bom filme consegue um bom equilíbrio entre os dois.

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