Hot! Crítica: «Descaradamente Infiéis» – Rir e pensar a infidelidade

Descaradamente Infiéis apresenta-se aos espectadores com um objectivo simples: explorar as várias facetas da infidelidade duma forma satírica e bem-humorada. É num registo completamente descomplexado e sob a forma de curtas-metragens que sete realizadores franceses, entre os quais Michel Hazanavicius e Jean Dujardin (respectivos realizador e protagonista do grande vencedor dos Óscares deste ano, O Artista), revelam uma tipologia de inúmeras relações extra-conjugais.

A infidelidade é uma prática comum aos homens deste filme e, aparentemente, há-os de todos os tipos: o marido atormentado pelos remorsos da traição que ainda nem cometeu, o homem que anda com uma rapariga mais nova, o traidor confesso e, claro, os amigos que são, de facto, infiéis e verdadeiramente descarados. Apesar do denominador comum ser a traição, todas as personagens apresentadas acreditam no amor. Não acreditam, no entanto, na possibilidade de manter uma relação fiel. Não há a ausência de remorso (na maioria dos sketches o sentimento de culpa é bastante evidente), há sim uma aceitação da condição natural do homem, polígamo, que lhes parece ser inevitável e inata. Por este motivo, e apesar da leveza que o filme revela do início ao fim, parece-me que o espectador é convidado a questionar-se sobre a convenção social de matrimónio generalizada na nossa sociedade que, para estes homens, apesar de em teoria ser aceite, na prática é insustentável.

A construção da película em curtas-metragens poderia constituir, à partida, um factor negativo. O desenvolvimento das personagens é limitado à duração dos sketches e, em um ou outro caso, ficamos a salivar por conhecer o desenrolar de determinada história e a evolução do problema. No entanto, esta é uma limitação necessária a um filme do género e os realizadores souberam contornar este handicap inteligentemente, através de alguns pormenores que fizeram a diferença. Em primeiro lugar, o facto de algumas personagens terem uma participação em mais do que uma curta-metragem: o enredo da primeira, por exemplo, acaba por culminar com a última curta do filme, para além de existir um sketch onde todas as personagens se encontram, o que, além de hilariante, dá a Descaradamente Infiéis a coerência e continuidade necessárias. Trata-se de uma série de curtas com histórias distintas e realidades diferentes mas nunca nos esquecemos que estamos a assistir a um filme uno, cujas partes formam um todo.

Outra manobra inteligente foi categorizar o conteúdo do filme em diferentes níveis de humor, ainda que isso não seja explícito. Predomina indiscutivelmente a comédia, mas uma das curtas-metragens tem uma forte carga dramática, sendo que as restantes retratam de forma cómica mas real situações de adultério. Outras duas, com uma duração de pouco mais de um minuto e que funcionam como uma espécie de intervalo entre as restantes, representam as situações mais caricatas e obscenas e um humor elevado ao surrealismo do tema. Existe um equilíbrio saudável entre os níveis de comédia e um ligeiro dramatismo, através do qual o filme prova que merece credibilidade e evita o possível rótulo de ser mais um filme com piadas fáceis e obscenas.

A propósito disso e para esclarecimento de dúvidas quanto às vozes que geraram a polémica em França e que consideraram os cartazes do filme obscenos, ofensivos e promotores de uma imagem desprestigiante da mulher, o filme não segue, de todo, essa linha. Bem pelo contrário, os 109 minutos de película procuram ridicularizar ao extremo a infidelidade masculina. Não é um filme machista, é um filme que ridiculariza o machismo.

Resta saudar as performances de Jean Dujardin e Gilles Lellouche, que para além de terem escrito o guião e realizado o projecto, também deram vida a quase todos os infiéis, numa metamorfose extraordinária de personagem em personagem. Dujardin dá voz à enorme capacidade expressiva a que nos habituou, outrora muda, e Lellouche não lhe fica, de todo, atrás.

Descaradamente Infiéis não é um filme memorável nem se encontra ao nível dos seus recentes antecessores franceses – não tem uma mensagem grandiosa como Amigos Improváveis nem vive da aura cinematográfica tão querida pelos amantes da sétima arte como o faz O Artista – mas assume o papel importante de confirmar o relançamento do cinema francês no panorama internacional e, só por isso, merece a nossa atenção.

1 Comentário

  1. sou adepto do cinema francês Vejo mais filmes franceses que americanos ou outros mas este Descaradamente Infieis “não valeu um corno” na minha pontuaçao de 1 a 10 valeu zero por amor de Deus não vejam este filme

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