Crítica Exclusiva: «O Cavalo de Turim» – O retrato da vida por Béla Tarr

O meu encontro com o novo filme de Béla Tarr deu-se na mais recente edição do Festival Internacional de Motovun na Croácia. Este festival é deveras particular quando comparado com outros à volta do mundo. Tem a sua personalidade e uma força que nos faz considerar se aquilo se trata mesmo de um festival de cinema. O ano passado houve mesmo um jornalista inglês que o considerou o Glastonbury dos festivais de cinema e devo admitir que a coisa não anda lá longe, ou não fossem os dias regados de filmes e as noites de festas sem fim, que vão desde concertos aos sets de dubstep e drum’n’bass, aquilo que o definem. O impressionante é também a presença de bastantes jovens no evento, que ficando a acampar no vale junto da pequena cidade, levam o conceito de festival ao extremo. No entanto não estou aqui para divagar sobre os bons tempos que passei em Motovun mas sim sobre o filme que me fez olhar para o cinema de uma maneira diferente.
Turin Horse é, sem dúvida, o filme mais desafiador que tive oportunidade de assistir em muito tempo. Não por ser complexo, mas antes pela sua extrema simplicidade. Com uma sala repleta fiquei admirado de no fim esta ainda estar praticamente cheia. É daquelas obras que muito provavelmente apenas verei uma vez e isso basta para que fique para sempre na minha memória. O filme começa com uma pequena introdução que em tudo explica o nascimento da ideia, tida em conjunto com o já colaborador habitual de Tarr, László Krasznahorkai. Trata-se de uma das teorias que defende a origem da demência de Nietzsche que reside no facto de este depois de ver um cocheiro a chicotear fortemente o seu cavalo por se recusar a andar, agarra-se ao animal e desde então silencia-se durante os dez anos que lhe restaram de vida. A pergunta que dá o mote é ‘O que aconteceu então ao cavalo?’. E assim partimos numa aventura (ou desventura) que nos fará reflectir, como disse Tarr, sobre o peso da existência humana. Depois, tudo acontece cronologicamente ao cabo de seis dias, onde as rotinas marcam a existência daquele pai e daquela filha e onde o cavalo, velho, os leva à destruição. Nada poderia ser mais subtil. Vemos e revemos nos seus 140 minutos, quase sem diálogo, as idas ao poço, o vestir e despir do homem, o cozer das batatas e a seu posterior ‘degustação’ de forma animal, as ocasionais visitas e a recusa do cavalo em obedecer ao seu dono.

A obra composta dos já famosos planos-sequência de Fred Kelemen num magnífico preto e branco revela uma mestria incomparável que me fez ficar boquiaberto por diversas vezes, ou não fosse o blocking das personagens e do animal de tal forma incríveis. Arrisco mesmo a dizer que o melhor actor é mesmo o cavalo, onde só a primeira cena descreve todo a profundidade da obra. A música e o ambiente sonoro é também algo muito singular, onde um vento tempestuoso e um arranjo musical de Mihály Vig entram em constante loop que nos deixa por vezes irritado mas cujo propósito resulta, que segundo o realizador serve para mostrar uma reformulação da própria teoria de Nietzsche em que Deus estaria morto. Para os autores ambos, Deus e Homem, são os culpados da destruição. E isso está muito presente em todos as cenas.
No entanto, Turin Horse é um filme que é difícil de ser falado sem se ser visto. É uma experiência diferente para cada um e eu admito que após o ter visionado não fiquei o maior fã do mesmo, no entanto, aquelas imagens, aquele som, aquele ambiente, atormentaram-me nas semanas seguintes, e isso, na minha opinião, é o que define uma obra-prima. Béla Tarr diz que esta é a sua última obra e apesar de ser uma pena que um dos realizadores com uma das visões mais singulares do cinema actual se reforme, fá-lo de uma forma bela, de uma maneira que só ele era capaz. Recomendo, ou melhor, obrigo qualquer cinéfilo que se preze a assistir a este pequeno filme sobre o Apocalipse.
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NOTA:
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O MELHOR:
Tal como a vida, a sua complexidade mascarada de uma simplicidade extrema.
O PIOR:
O ambiente sonoro torna-se por vezes irritante.
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o site da Midas Filmes noticia 19-04-2012 como dia de estreia http://www.midas-filmes.pt/estreias/proximas_estreias/o-cavalo-de-turim