Crítica: «Moonrise Kingdom» – O primeiro amor de Wes Anderson

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Moonrise Kingdom retrata, com a beleza que é própria dos filmes de Wes Anderson, o período de descoberta que significa a infância. A narrativa explora esta marcante fase da vida humana, notável por inúmeras aprendizagens e algumas desilusões, com uma simplicidade incrível, sem nunca deixar de lado a complexidade do mundo adulto.

Duas crianças, Suzy e Sam, inebriadas pelo forte sentimento de cumplicidade que as une, decidem fugir das vidas que levam e desaparecer, para nunca mais serem vistos. O par foge dos problemas do quotidiano, das mágoas e desgostos que lhe são inerentes e cuja criação não lhe é imputável. Fogem, essencialmente, das confusões criadas pelos adultos, que irremediavelmente os afectam.

Suzy e Sam são atraídos pela dor comum, provinda da rejeição, e encontram, um no outro, um porto de abrigo. Não são precisos vários contactos para que os dois se apercebam que estão na presença de outra criança que partilha de dificuldades semelhantes. Assim, inesperadamente, o amor cresce entre os dois, nascendo da adversidade, da necessidade de ambos de se alhearem à problemática realidade que herdam das gerações mais velhas.

Suzy é uma pré-adolescente depressiva, com ataques de raiva e agressiva, por vezes. Ávida por uma aventura, de viver um segredo como os que escondem as personagens dos seus livros, Suzy decide fugir. Para trás, quer deixar o que sabe sobre o disfuncional casamento dos pais. Já ele, Sam, foi dado para a adopção e, quando descobre que a sua família de acolhimento não o pretende voltar a receber, também ele decide sumir-se. Perfeitos um para o outro, conhecem-se e partilham experiências no Reino só deles, por eles criado, e onde só eles são admitidos.

Os momentos íntimos protagonizados por Suzy e Sam são, sem qualquer dúvida, o melhor que este filme tem para nos oferecer. A franqueza com que as cenas são realizadas, e a forma como os actores as interpretam, tocam-nos individualmente, ao evocarem memórias que guardamos com alguma ternura. O primeiro amor, que todos vivemos com intensidade, é aqui retratado com um elevado nível de verosimilhança pelo guião de Anderson e Roman Coppola, deixando nostálgico cada um dos espectadores. A assinatura de Wes Anderson é bem visível, tanto nos diálogos entre os dois fugitivos – que são absolutamente deliciosos, de tão cativantes – como no seu estilo muito próprio de filmar e na saturação da cor, que imprimem à película o seu tom audaz e caricato de sempre.

Moonrise Kingdom peca, no entanto, por não nos dar mais interacção entre Sam e Suzy, escolhendo, em vez disso, focar nas personagens secundárias e na sua perseguição do pequeno casal. Os veteranos Bill Murray, Frances McDormand, Edward Norton e Bruce Willis conseguem divertir imenso (não tantas vezes como o guião pretende, porém), mas não são nunca capazes de nos envolver tão bem como os dois fugitivos e os momentos de ternura que vivem.

A sequência final desfavorece bastante o filme, com a sua interminável (e desnecessária) sucessão de acontecimentos improváveis, onde se dá mais importância à fuga do que à relação que constitui o núcleo da história. A comédia é um elemento essencial da trama, mas é, por vezes, levada a um extremo que só prejudica o filme. Este exagero, que é bem notório quando, por duas vezes, um relâmpago atinge o local certo na hora certa, contrasta de forma berrante com o realismo do amor entre Sam e Suzy.

Moonrise Kingdom é um filme especial, como todos os que têm o cunho pessoal de Wes Anderson. É único, na forma como conta a sua história, também ela invulgar, e memorável, com a ajuda dos seus belos diálogos. É honesto, realista, intimista e simples, ao mesmo tempo. Mas podia sê-lo ainda mais, se, a determinada altura, não perdesse o foco.

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