Crítica «O Cavaleiro das Trevas Renasce»: O Erguer da Saga

As expectativas são uma coisa complicada. Christopher Nolan bem o deve saber, tendo realizado aquele que é, provavelmente, o filme mais aguardado do ano. O Cavaleiro das Trevas Renasce termina a sua trilogia Batman, que deu nova alma não só ao homem-morcego mas também a toda uma nova geração de adaptações de comics, mostrando que filmes de super-heróis não têm de ser só sobre CGI e explosões; também podem ser sobre personagens e ideias.
O Cavaleiro das Trevas (2008) foi discutivelmente um dos melhores policiais das últimas décadas, um Heat com um herói de capa e um vilão maquilhado, onde as cenas de acção eram segundo-plano para um filme negro e pessimista que servia tanto de retrato como de crítica a uma sociedade pós-11 de Setembro, onde o mal era anárquico e sem motivação (sem ser a de… fazer o mal) e o bem era frágil e ambíguo (toda a personagem de Harvey Dent foi, diga-se, um golpe de génio). E agora, com este novo terceiro e último capítulo acabado de chegar às salas de cinema portuguesas, resta a pergunta: depois daquilo, como continuaria (terminaria, aliás) Nolan a história, e será que o conseguiria fazer ao mesmo nível?
De forma clara e directa: sim. O Cavaleiro das Trevas Renasce é discutivelmente o melhor da saga, mantendo o nível nos aspectos onde já O Cavaleiro das Trevas era genial e melhorando noutros. Ainda mais pessimista, ainda mais negro, e fragilizando ainda mais a personagem de Batman (e, acima de tudo, Bruce Wayne, que é aqui quem mais interessa), Nolan criou uma obra-prima por vezes de contornos pós-apocalípticos, onde o mal continua assustador e absoluto, e o bem está em pior forma que nunca. O realizador continua, parece, a fazer aquilo que poucos fazem tão bem: blockbusters com ideias. Grandiosas, ambiciosas e relevantes ideias, que surpreendem na sua execução, e onde até uma música que se ouve na (excelente) banda-sonora tem a certa altura um papel a desempenhar (que pequeno momento genial, esse).
São quase três horas (duas horas e quarenta-e-cinco minutos, para sermos exactos) frenéticas, numa boa primeira parte, de um build-up cirúrgico de tão bem-pensado que está, e uma segunda parte genial, com mais de uma hora de pay-off. E sim, a história de Bruce Wayne termina mesmo aqui. E termina muito bem.

A crítica social vai ainda mais longe, a personagem do milionário é finalmente explorada como merece (aliás, Batman, de fatiota completa, aparece menos do que se espera; interessa muito mais o que interessa dentro do fato), e temos um grande, grande trunfo: Bane. Era difícil arranjar um vilão que conseguisse manter o nível de Heath Ledger e o seu Joker, mas Nolan conseguiu-o. Tom Hardy está absolutamente espectacular como Bane, onde basta a voz (não se preocupem, ouve-se tudo na perfeição… mas também se não se ouvisse, tínhamos as legendas) para intimidar e criar tanto medo quanto respeito no espectador. Se Joker era um contraposto apenas mental e ideológico de Batman, Bane é tudo isso… e ainda mais. Desta vez há confronto físico, bruto e cru (o primeiro confronto entre o protagonista e o antagonista é das cenas do ano, ponto), onde murros e pontapés são dados pelo meio de diálogos onde Bane obriga o homem-morcego a confrontar-se com o que mais teme: ele mesmo, e o seu papel no meio de tudo. São o oposto perfeito um do outro, com a backstory de Bane a encaixar na perfeição na própria história de Wayne e o seu alter-ego. Bane vai ainda mais longe que Joker (e julgávamos nós que isso não era possível…), com o filme a chegar graças a ele ao mais puro poço do pessimismo e do desespero em vários momentos. Personagem unidimensional? Muitos irão chamá-lo de tal. Mas não: é apenas o mal encarnado, com razões até mais explicadas que as de Joker (que… bem, nem justificava propriamente o que fazia), absoluto e sem piedade, com uma mente tão poderosa quanto os seus músculos. É em Bane que Batman encontra, finalmente, aquele que o obriga a ser, obrigatoriamente, ainda mais do que é… ou não. Isso já era contar.
E se Hardy está espectacular, também o estão todos os novatos na trilogia. Joseph Gordon-Levitt tem imenso peso na história, e mostra mais uma vez ter um carisma e ao mesmo tempo uma sensibilidade em que basta um olhar para dizer mais que dez linhas de diálogo; Anne Hathaway está também óptima como Selina Kyle, com a sua Catwoman a ter tanto estilo (muito, muito estilo) como profundidade, a ter na trama um papel que a certa altura se torna tão fulcral quanto ambíguo; e Marion Cottillard, tão bela como sempre, cria uma personagem que, mesmo sem tanto tempo de antena, acaba por ser absolutamente essencial. É aqui que se revela bem o talento de Nolan como contador de histórias: cada personagem tem o tempo de antena que merece, tendo um papel na história a desempenhar, ao longo de quase três horas que passam literalmente a correr.

O resto do elenco está, claro, também óptimo, mas é preciso dar destaque a Michael Caine e ao seu Alfred. Algumas das melhores cenas de todo o filme são entre Wayne e o seu guardião, e Nolan foi um pequeno génio ao evoluir de forma tão emotiva a relação entre os dois. Alfred não tem tanto tempo de antena como alguns dos restantes, mas praticamente todas as cenas em que entra são, basicamente, de ir às lágrimas. Sempre tivemos vislumbres da relação quase pai-e-filho entre Wayne e o seu mordomo, mas é aqui que essa relação ganha contornos mais dramáticos e directos, com Caine a aparecer menos mas com muito mais intensidade.
Christian Bale continua com o seu Bruce Wayne conflictuoso e frágil (ainda mais, desta vez), dando desta vez uma maior complexidade á personagem. Que não hajam dúvidas: O Cavaleiro das Trevas Renasce é sobre o homem que está por trás da máscara. O homem que sacrifica tudo por uma cidade que tantas vezes o odiou, que perdeu a mulher que amava, e que tem de se obrigar a ser mais do que é para cumprir o que dele esperam. Christopher Nolan focou-se muito mais no arco narrativo desta personagem que em O Cavaleiro das Trevas, onde Joker quase roubava o filme, evoluindo e terminando a história do homem que é, afinal, a peça fulcral do jogo de xadrez que se foi desenrolando ao longo da trilogia. Aliás, O Cavaleiro das Trevas Renasce, em termos de história, tem muitos mais pontos de ligação com Batman – O Início (2005), indo buscar ao passado o que precisa para fechar o presente. Não entrando em spoilers, há ligações bastante bem-feitas, e o terminar da história da personagem que é, acima de tudo, humano e definitivo. Como esta bem merece.
Gary Oldman está óptimo, mas tem pouco tempo de antena. Essa é, aliás, talvez a única falha óbvia do filme: Gordon perde imensa relevância em relação aos filmes anteriores. Má narrativa? Não, era necessário. Mas, ainda assim, ficamos com pena de não acompanharmos mais a sua personagem. Mas, uando entra verdadeiramente em acção, Oldman mostra-se o óptimo actor que todos sabemos que é. E ainda tem uma boa mão cheia de momentos desses.

A segunda metade do filme, que tem tantas explosões como reviravoltas de ficar de boca aberta e momentos da mais profunda crítica social (a forma como Christopher Nolan mostra Gotham a certa altura é do mais genial que podia ter pensado), é um clímax de mais de uma hora, com momentos a impressionar tanto pela sua espectacularidade (Nolan é, agora, muito melhor a encenar cenas de acção) como pela sua capacidade de arrancar algumas lágrimas. Este é, afinal de contas, um filme com um coração enorme, que coloca o ponto final na história duma personagem que acompanhámos ao longo de três filmes. Nolan sabe bem isso, e preocupa-se mais em momentos de intimidade e exploração emocional que com perseguições e explosões.
E é, afinal de contas, por isso que O Cavaleiro das Trevas Renasce não desilude. Porque é um filme com ideias, com coração, com personagens, tanto novas quanto antigas, com as quais simpatizamos e nos ligamos graças a um realizador que sabe bem contar uma história. É absolutamente espectacular, claro, mas até mesmo nas cenas de acção o coração está lá. Aquela última meia-hora, cheia de aparato, acaba por entusiasmar não tanto pelo espectáculo visual que vemos, mas mais pelas personagens que nela entram, e pelo que está em risco. Damos por nós tão motivados quanto os heróis, dispostos a dar tudo para que tudo termine bem.
Resumindo: é negro, é pessimista, é emotivo, é espectacular, é inteligente e é, como todos querem que seja, grandioso. Christopher Nolan conseguiu não desiludir, terminando uma trilogia com o seu melhor capítulo. O Cavaleiro das Trevas foi já bem perto do genial, mas é aqui que Nolan lá chega verdadeiramente, espremendo todo o potencial de personagens e ideias que foram, ao longo de três filmes, apresentadas e desenvolvias. O Cavaleiro das Trevas Renasce faz, afinal de contas, jus ao seu título: esta é, sem dúvida, a coroação definitiva de uma trilogia que, daqui a uns anos, alguns talvez se atrevam a chamar de “clássica”. O homem-morcego ergueu-se, e o céu foi o limite. Isto não é, apenas, grande cinema de entretenimento; isto é grande cinema, ponto.

As expectativas são sempre umas safadas realmente
Ainda estou a digerir o filme, mas para já não o considero o melhor da trilogia, até diria que gostei mais dos outros 2, mas do dark knight de certeza. Daqui a uns dias já te confirmo isto
O que não quer dizer que não tenha gostado deste claro, apesar de achar que o Nolan continua a exagerar nalgumas coisas tal como no Inception. Há muita repetição de informação neste filme, já percebemos, move on…
O melhor deste é aquilo que já havia sido o melhor do anterior… o vilão
O Joker tinha deixado uma imagem insuperável, já agora, o facto de não o explicarem foi algo que adorei terem feito tal como nos primórdios da BD. Dá força à personagem. Sabemos no entanto que ele quer mostrar que todos são tão feios quanto ele dada a oportunidade e falha nos navios mas consegue-o com Dent.
Mas voltando a Bane. Excepcional, grande personagem, a presença em palco é intimidadora, adorei o Tom Harde. Esta é o caminho, um vilão totalmente diferente do anterior.
Gostei do final, não querendo prolongar-me sobre isso, é um final que nunca vai acontecer na BD, por razões óbvias, mas que lhe era merecido
Pessoalmente acho que este filme fica atrás dos anteriores. Embora tecnicamente não fique a perder, embora o vilão Bane esteja soberbo, embora outras personagens (como Alfred e Gordon) se mantenham sublimes, embora Hans Zimmer continue a provar que é o melhor…há coisas que não me parecem tão bem.
Em termos de fidelidade à BD, é para esquecer. Claro que não tinha que o ser, mas se tomou essa opção que a assumisse sem reservas e construísse uma história com estrutura suficiente. Acho que fica um pouco no meio das duas coisas, o que acabe por estragar um pouco o filme. Por exemplo, vê-se na “obrigação” de introduzir duas novas personagens (Robin e Catwoman) para, ou as desvirtuar por completo (como aconteceu com o Robin) ou lhes dar um papel marginal no decorrer do filme mas fulcral no final (Catwoman). Outra coisa absurda foi o Wayne passar metade do filme amargurado com a perda da namorada e a outra metade envolvido com a Tate e apaixonar-se pela Catwoman em dois beijos roubados ao ponto de tomar a decisão mais importante da sua vida.
Demasiadas lutas corpo a corpo para um super-herói que não é mais do que um mero ser humano munido de tecnologia e gadgets (é essa a identidade do Batman, poder ser qualquer um). Batman não fez uso de uma arma o filme inteiro, embora soubesse de antemão que era fisicamente inferior ao Bane.
O final, péssimo. Uma bomba nuclear com alcançe de 9km explode no mar mas não tem quaisquer repercussões para Gotham, nem cria uma ondinha que afecte a cidade… A sobrevivência do Batman demonstra a incapacidade de Nolan resistir aos clichés dos finais felizes, coisa que tinha sido tão bem conseguida no filme anterior.
Eu não gostei por aí além do Begins, por isso para mim era mesmo entre este e o anterior.
O estilo do é um bocado isso, mostrar tudo ao espectador de forma completamente vertiginosa. Sei de gente que nem conseguiu acompanhar bem o filme por causa disso, muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e demasiada informação a ser processada.
Adorei mesmo o Bane. Ontem revi o filme e gostei ainda mais. Não queria dizer que isso de não explicarem o Joker era uma falha, só não dá tanta complexidade emocional (por assim dizer, vá) quanto tem o Bane, por exemplo, que perto do fim tem aquele twist que só o torna ainda melhor. E nem tinha pensado nisso, mas tens razão: é um vilão totalmente diferente do anterior, e é assim que tem de ser. Gostei que houvesse um confronto mais directo entre os dois que havia com o Joker.
Também gostei do final, e é muito fiel àquela ideia toda de que o Batman é uma ideia que não pode morrer. Gostei disso, era uma coisa que já desde o primeiro filme ele vinha a falar e manteve-se fiel a isso.
Desconfio que sou mesmo dos poucos que gostou mais deste que do anterior… Mas de qualquer das formas, acho que é mesmo um excelente final para a trilogia.
Pah, só tenho a dizer uma coisa. Este filme é enorme!! Lindo! Pagava outro bilhete para o voltar a ver. Concordo com toda a critica e parabéns a quem a escreveu. Nem retiro nada. Este filme é bom e ponto.
Cuidado com a zona de comentários, repleta de spoilers