Hot! Crítica: «Prometheus» – Revitalizando a mitologia de «Alien»

Quando um filme é tão aguardado como Prometheus,quando o hype criado é tão grande e as expectativas do público tão elevadas, a tendência normal é para que as opiniões sejam de extremos. Quem ansiou exactamente por aquilo que o filme é, vê as suas elevadas expectativas correspondidas, ou até mesmo suplantadas; no entanto, quem anseia por algo diferente, ficará obviamente muito frustrado com o resultado final. O hype, a capacidade com que se põe toda a gente a falar sobre um produto, é, por isso, uma faca de dois gumes, a ser utilizada com precaução.

Prometheus marca o regresso de Ridley Scott ao género que o tornou famoso e conta a história de um grupo de cientistas que embarca numa viagem com destino a um planeta desconhecido, com o objectivo de descobrir as origens da raça humana. Não é uma prequela de Alien – não só porque os produtores assim o disseram, mas porque, se fosse, estaria cheio de incongruências -, mas utiliza a mitologia do icónico franchise, expandindo-a e revitalizando-a.

Quem se sentou para ver Prometheus esperando um filme parecido a Alien, ignorando, dessa forma, toda a campanha promocional que sugeria uma película bem diferente, sairá desiludido. A única semelhança entre Prometheus Alien é o universo em que se passa a história. De resto, Prometheus é absolutamente diferente: é visual, frenético e de acção, enquanto que Alien é sugestivo, tenso e misterioso. A cena introdutória do filme, magnífica e tão reveladora, não deixa quaisquer dúvidas sobre a divergente natureza das duas fitas.

Separados por anos de evolução tecnológica, Prometheus é tudo aquilo que Alien não é (nem precisava de ser), em termos de efeitos especiais. É um espectáculo visual, onde todos os frames são polidos e aperfeiçoados, de forma a criar, da melhor maneira, o ambiente estéril e artificial do futuro. Deslumbram-nos com tempestades de electricidade estática e hologramas – fortemente engrandecidos por uma das melhores utilizações do 3D a que já assistimos – e põem os fãs de ficção científica em delírio, com a criação de toda e qualquer tecnologia. Dariusz Wolski tem um dos papéis mais decisivos na concretização de Prometheus, como responsável pela fotografia do filme, e cumpre-o com distinção. No entanto, o filme cai no excesso de querer mostrar tudo, talvez até de mais, não conseguindo nunca criar suspense. Certos momentos beneficiariam de maior intensidade se fossem construídos com mais calma e cuidado e, porventura, se deixassem alguns elementos à imaginação do espectador. A sensação é a de que se parte logo para o clímax, sem cenas de antecipação, de construção ritmada da tensão.

Parte-se para a acção, em detrimento do mistério. Compensa-se esta falta, porém, com a exuberância das cenas de acção, que deixam qualquer um agarrado à cadeira, entusiasmado. Quanto àqueles instantes de horror petrificante em que Alien era profícuo, também figuram aqui. Da mesma forma que a mítica cena do chestburster ficou para a história, também em Prometheus há uma sequência capaz de se tornar memorável pelas mesmas razões, porventura a mais incómoda e angustiante de todo o filme e que é protagonizada por Noomi Rapace.

Um dos elementos que mais atrai na história é a sua curiosa mistura de temáticas. A religião, as relações entre pais e filhos, a mortalidade e a curiosidade humanas são temas que se conjugam na perfeição, num ambiente de pura ficção científica, dando ao filme uma grande dose de humanismo. Porém, todos estes assuntos, que tanto potencial tinham, são mal desenvolvidos. O guião, de Jon Spaihts e Damon Lindelof, consegue deixar-nos interessados, investidos nos dilemas daquelas personagens, mas falha em concluí-los de maneira relevante.

Também mal desenvolvida é a personalidade da maior parte das personagens, que não passam de figurantes. Destaque só o têm os habitantes do planeta LV-223 e os três personagens principais: a Dra. Shaw (Noomi Rapace), o David (Michael Fassbender) e a Capitã Vickers (Charlize Theron). Todos os outros tripulantes do Prometheus são meros arquétipos e estão lá para cumprir uma função: uns para criarem conflitos no seio do grupo, outros para… morrerem, simplesmente, para servirem como carne para canhão. Isto nota-se principalmente no final do filme, quando três personagens pouco relevantes, mas que têm um papel fundamental para o desfecho da história, tomam uma atitude que se verifica inexplicavelmente altruísta.

David é, sem dúvida alguma, o protagonista do filme. Tudo o que têm escrito sobre a personagem é verdade: o andróide rouba a atenção do público em todas as cenas em que aparece. Michael Fassbender está à altura do desafio e prova, mais uma vez, que é das descobertas mais promissoras dos últimos tempos, em termos de representação. Já o papel da implacável Meredith Vickers encaixa-se na perfeição ao perfil de Charlize Theron e Noomi Rapace demonstra toda a sua força, no papel, fisicamente exigente, de Elizabeth Shaw.

Prometheus faz perguntas e responde à maior parte delas. Contudo, deixa muito por responder, abrindo descaradamente as possibilidades para uma sequela. E nós quero a sequela! As expectativas não saíram goradas, pelo contrário. Prometheus não é uma obra-prima, mas é um filme que nos arrebata. Com a beleza colossal das suas imagens, com as suas frenéticas cenas de acção e com a muito antecipada expansão do universo de Alien. Tem os seus defeitos, mas, no cômputo geral, vale muito a pena. É um prato cheio para os amantes de ficção científica, coordenado pelo grande mestre do género, Ridley Scott.

12 Comentários

  1. Frederico Ferreira da Silva

    Então e o que revela essa cena introdutória? É que sinceramente a mim deixou-me imensas dúvidas e pelo que vi aqui pela internet estou muito longe de ser o único…

  2. Curiosamente achei a Rapace uma das maiores fraquezas do filme. O Fassbender e a Theron estavam óptimos e o Elba também merecia um pouco mais de atenção do que a que teve mas foi o que se espremeu.

  3. Rita Teixeira

    O filme é fantástico! Mas para um filme que não é uma prequela, tem demasiadas coincidências com o Alien…

  4. Adorei a crítica, parabéns pelo talento, coisa que obviamente,é para quem o tem e não para os que querem ter, ou pior, pensam que tem.Análise hábil e pertinente sobre a película.

  5. @Frederico Ferreira da Silva
    A cena inicial, segundo a interpretação que eu lhe dou, corresponde à origem da raça humana. Aquele acto por parte do Engenheiro, na Terra, criou o Homem. Não sei como e não sei porquê… mas de qualquer forma, quando usei a palavra revelador era noutro sentido: no de que a cena diz muito sobre como é o filme, ao mostrar, logo nos primeiros minutos, sem quaisquer rodeios, aquele ser e aquele seu acto. Alien nunca o faria, por se basear mais na tensão psicológica, e menos no que é visualmente impactante.

    @FilmPuff
    O Elba só esteve lá para não se dizer que a Prometheus não tinha Comandante. E para se envolver com a Vickers! Hehe…

    @Rita Teixeira
    Concordo. Podiam ter “pegado” no universo de Alien, mas tê-lo feito de forma mais original, nomeadamente não usando como cenário principal uma nave em tudo semelhante à do Space Jockey do Alien.

    @Levinson
    Obrigado pelo elogio, Levinson. :)

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