Crítica: «Sombras da Escuridão» – Quando o terror e a comédia se confundem

Parece que a “moda vampiresca” veio para ficar. Depois de filmes, sagas e séries sobre o tema, chegou a vez de Tim Burton mostrar ao mundo a sua perspectiva sobre o mesmo. Uma perspectiva no mínimo muito diferente daquele que nos últimos anos nos tem entrado pelas televisões e telas de cinema. Este é um vampiro clássico. É Barnabas Collins. Dorme de cabeça para baixo, sofre de uma sede insaciável de sangue, não tem reflexo e a luz solar é-lhe de facto prejudicial à pele. Assustador? Poderia ser. Mas Sombras da Escuridão tomou um caminho diferente daquele que vem sendo habitual nas realizações de Tim Burton.

O tom é carregado e sombrio nos primeiros dez minutos de filme, mas rapidamente se torna num híbrido entre comédia e terror, que só encontra semelhante no reportório de Burton em Beetlejuice, de 1988. Barnabas, interpretado, como não poderia deixar de ser, por Johnny Depp (é já a oitava colaboração de actor e realizador!), é um vampiro amaldiçoado por uma bruxa (Eva Green). Após ter desprezado o seu amor, a mesma condenou-o à imortalidade e a passar duzentos morosos anos enterrado dentro de um caixão. Quando finalmente se vê livre, Barnabas retorna à casa que o viu crescer e descobre que a realidade é, agora, muito diferente da sua.

A excentricidade dos familiares de Barnabas e o fosso cultural entre o vampiro e a época, agora anos 70, são os factores sobre os quais incide a maior parte do humor. As piadas são de um humor negro exacerbado, que tão bem assentam em Johnny Depp, o vampiro completamente deslocado da realidade em que se encontra: o uso de expressões aristocráticas como “ancas parideiras” para elogiar a beleza de uma mulher ou o total desconhecimento pelas novas tecnologias são algumas das suas características e que certamente valerão boas gargalhadas.

Ao mesmo tempo que este humor com pormenores extravagantes (e por vezes exagerados) decorre, Burton tentou dar a Sombras da Escuridão momentos de suspense e horror ao nível de A Noiva Cadáver ou Sweeney Todd – O Terrível Barbeiro de Fleet Street, acompanhado de um certo melodramatismo. E aqui parece-me que reside o motivo pelo qual este não é um filme completo. O tom das sequências sucede-se, ao longo da película, de forma algo aleatória. Se num momento estamos de respiração suspensa à espera do que estará para vir, no seguinte tudo cai por terra e estamos a rir. Uma conjunção que poderia resultar, não fosse o pouco investimento no lado mais sombrio do filme que, exceptuando o início, é fraco.

Este hibridismo causa estranheza ao espectador, estranheza que é evidenciada por pormenores bizarros e inesperados que se sucedem no decorrer da narrativa. Parece-me que a intenção do realizador seria precisamente criar essa estranheza, um sentimento de empatia/repulsa pelas personagens e pelo enredo em si. No entanto, muitas vezes a história anda à deriva sem um fio condutor e as cenas, ora cómicas e bizarras, ora de suspense ou horror, atropelam-se e, por vezes, apresentam mesmo alguma falta de coerência.

À parte da narrativa, tudo o resto é delicioso em Sombras da Escuridão. A começar pelo aspecto visual. Sabemos que o estilo de Burton privilegia os jogos de sombras e luz, a mistura de tons e as cores vivas em contraste com o preto e branco. Neste filme, essa característica é levada ao extremo, ou não fosse o título do filme uma alusão a isso mesmo! O negrume das cenas iniciais contrapõe-se com as cores vivas das roupas e decoração, assim como dos carros, habitações e cenários em geral.

Estamos nos anos 70, o lema é flower power e Tim Burton não se esqueceu desse pequeno mas tão importante pormenor que é a caracterização de época. O movimento hippie marca presença, assim com a opulência de uma sociedade americana em crescimento, na qual as mulheres começam a ascender ao poder. Também a música não foi esquecida, para além das composições de Danny Elfman, é possível entrar no verdadeiro espírito da década de 70 e recordar The Moody Blues e até vislumbrar Alice Cooper. Os efeitos especiais, mais visíveis na fase final do filme, têm uma concretização que enche as medidas do espectador mais exigente a nível visual.

Não se pode dizer que Sombras da Escuridão não deixe a desejar, em parte por se tratar de uma produção de Tim Burton e porque não é fácil não esperar o melhor quando se trata deste realizador. Ainda assim, o seu estilo gótico e excêntrico está presente (e de que maneira!) no aspecto estético do filme e a participação camaleónica de Johnny Depp volta a revelar-se uma mais-valia, desta vez alicerçada por uma elegante Michelle Pfeiffer e uma maléfica e bem concretizada Eva Green, sem esquecer Helena Bonham Carter e Chloë Moretz. A receita para assistir a este filme com a melhor disposição talvez seja esperar somente uma comédia de humor negro com um grande elenco e um toque de Tim Burton. E é o suficiente para valer a pena.

2 Comentários

  1. Eu adorei. 5*
    Adorei a acaraterização da época por Tim Burton :)

  2. Tomás Ribeiro

    É o melhor filme de sempre!!! Vi-o ontem pela 1ª vez e vou vê-lo muitas mais vezes. Por isso quem acha que o filme nao foi nada de especial, que vá a M****.

Deixar uma resposta

O seu email não será publicado. Campos de preenchimento obrigatórios *