Especial David Cronenberg – A metamorfose de uma larva dicotómica

Depois de se ter apaixonado pelos Dead Combo e de os ter levado até Cannes, o realizador entrega-se a uma “Lisboa revisitada”. E talvez com um “cansaço de civilização” próximo do de Pessoa no poema homónimo, David Cronenberg estreia esta semana nos cinemas o seu novo filme: Cosmopolis.

David Paul Cronenberg nasce no Canadá, no ano de 1943 durante o qual na Europa se vivia o princípio do fim da 2ª Guerra Mundial. Desenvolveu desde cedo o hábito da escrita e o gosto pela ciência, dois pilares onde viria mais tarde a cimentar toda a sua obra.

Segundo Cronenberg “tudo surge do corpo e da mortalidade humana”. Ao que parece, e mesmo que isso o mantenha muitas vezes à margem de Hollywood, o abismo entre o corpo e a morte fascinam-o, levando-o a uma busca exaustiva pelas dicotomias humanas que retrata minunciosamente ao longo da sua filmografia. É o próprio que nos propõe uma análise sequencial e algo enquadrada, mantendo-se sempre fiel a bandas sonoras e cenários minimalistas, que nos vao dando algumas nuances de possíveis interpretações.

A cor das linhas com que tecemos os nossos pensamentos, quando não são as mesmas, encontram-se geralmente em comprimentos de onda muito próximos no mesmo espectro. E afinal, falar de David Cronenberg não é mais do que uma análise extensiva do espectro electromagnético na zona dos raios ultravioleta. Fere-nos a vista e pode deixar algumas queimaduras. Entranha-se na pele e pode muitas vezes conduzir a mutações drásticas na nossa percepção do ser humano.

Videodrome – Experiência Alucinante (1983) constitui um dos seus filmes mais aclamados. O cenário é o canal de televisão pronográfico de Max, e o alvo de Cronenberg é a crítica acutilante sobre o efeito da televisão na estupidificação das massas, objecto quotidiano que além de comunicar conteúdos vazios, que nada acrescentam a existência do ser humano, banaliza a violência e confere aos espectadores psicoses (tumorais e contagiosas) que os influenciam num todo.

Em A Mosca (1986) o casulo kafkiano de Cronenberg liberta o mais belo dos Imagos cinematográficos de adaptação literária ao cinema. E se Kafta é cruel na transformação do homem em insecto, Cronenberg evidencia-lhe ainda mais a solidão assustadora numa sociedade corrupta de virtudes falsamente morais e (des)construidas pela própria. O indíviduo na fronteira entre o humano e a besta, e a sua colisão com “Estranhos Prazeres” que mais não pretendem do que descer o nível da água num iceberg de (in)consciências que o encaminham para a sua bestialidade. E esta obsessão de Cronenberg sobre a importância do nível da água relativamente ao iceberg é reincidente e volta a ser bastante óbvia nos seus  filmes mais recentes como Uma História de Violência (2005),  Estern Promises (2005) e Um Método Perigoso (2011). Além da obsessão pela fronteira dos (in)conscientes, Cronenberg apresenta nestes uma crua e realista exploração da identidade pessoal de personagens que se refugiam no náufrago da realidade consciente. E onde tocam afinal a negação de Tom e histeria de Sabine? Não são  Freud ou Jung que o esclarecem, mas Cronenberg quem nos deixa mais perto de uma resposta.

Como disse o próprio, “a arte apela ao inconsciente, aquilo que é suprimido e reprimido. Considerando que a civilização, no paradigma freudiano, é ela mesma que constitui a base dessa repressão, arte e sociedade encontram-se em luta. No entanto há uma necessidade de arte na própria sociedade, uma válvula de escape ou não mais do que uma necessidade humana de compreender aquilo que a sociedade não autoriza mas que  mesmo assim precisa de ser expresso.”.

Em EXistenZ (1999) volta a ela: à dicotomia sociedade-arte, consciente-inconsciente, real-virtual. Cronenberg é compulsivo na construcção de fronteiras ténues entre os seus objectos dicotómicos, ele não busca respostas concretas mas antes uma análise detalhada sobre cada uma das alfândegas que as compõem.

Afinal David Cronenberg é isso, uma extensa análise dicotómica, um interrogatório exaustivo e basal a que o realizador se propõe a si e ao público: quais são, afinal, os limites da condição humana?

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