Especial «O Cavaleiro das Trevas Renasce»: Tim Burton vs. Christopher Nolan

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Christopher Nolan será para sempre recordado como o realizador que agarrou no universo de Batman e, imputando-lhe o seu estilo muito próprio, criou uma das adaptações mais originais e memoráveis centradas neste super-herói. No entanto, se é verdade que hoje, quando se pensa em Batman, pensa-se necessariamente na trilogia criada por este que é um dos realizadores mais inteligentes da actualidade, também é verdade que outras adaptações cinematográficas existiram e que uma delas contou, na realização, com outro colosso do cinema norte-americano: Tim Burton.

Antes de filmes como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, O Grande Peixe e Alice no País das Maravilhas, Burton conduziu o filme Batman, que estreou no ano de 1989, protagonizado por Michael Keaton. Três anos depois, após o inesquecível Eduardo Mãos de Tesoura, o realizador brindou o público com uma sequela, a que deu o nome de Batman Regressa. Que se engane quem, por considerar exímios os filmes Batman – O Ínicio e O Cavaleiro das Trevas, despreze as anteriores adaptações, por considerar não poderem sequer chegar aos seus calcanhares, em termos de qualidade. É da comparação destes produtos tão diferentes, do escrutínio dos seus maiores louvores e defeitos, que nasce uma maior compreensão do mundo deste herói de banda desenhada e uma nova percepção, mais clara, daquilo que nós, como espectadores, esperamos de O Cavaleiro das Trevas Renasce. Da justaposição de trabalhos distintos como estes, nasce o conhecimento sobre o que nos atrai tanto ou o que realmente sobressai como um dos elementos negativos, em determinado filme. É isso, portanto, que nos propomos fazer neste novo artigo, inserido no Especial «O Cavaleiro das Trevas Renasce».

Batman vs. Bruce Wayne

BATMAN vs. BRUCE WAYNE

O Batman de Burton é, em poucas palavras, um homem de quem pouco ou nada sabemos. É um herói, é rico, é Bruce Wayne. Nada mais, nada menos. Ao contrário do de Nolan, de quem conhecemos várias camadas de desenvolvimento, várias facetas até, o de Burton é um homem simples, sem dores ou angústias prementes, e cujo único objectivo é proteger Gotham City. Bruce Wayne é apenas o homem por trás do fato, o homem que lhe dá forma, mas que com ele não se confunde. O importante é o herói, o morcego; a psique de Wayne só é relevante em momentos muito particulares da história, nomeadamente nas cenas que partilha com os seus interesses românticos – a repórter Vicki Vale, no primeiro filme, e Selina Kyle, no segundo. Nesse aspecto, a adaptação de Tim Burton consegue ser pouco profunda, como se a verdadeira identidade de Batman pouco ou nada importasse.

Já a de Christopher Nolan é bem diferente, quase o oposto. A sua personalidade é cuidadosamente desenvolvida, com recurso a vários flashbacks, que nos mostram os momentos-chave da vida de Bruce. Desde o seu medo de morcegos proveniente do trauma da queda no poço, ao assassínio dos pais, ao exílio e ao treino com Ra’s Al Ghul, há pouco sobre o que move o herdeiro Wayne que nós não saibamos. Conhecemos o motivo por que luta, por que quer ver Gotham livre de criminosos. Sabemos como nasceu esse desejo, de onde vem aquela raiva e determinação. Sabemos até como construiu o seu fato, de onde provém a tecnologia que utiliza. Todos os passos dados por Bruce em direcção a Batman, nós demo-los com ele, na adaptação de Nolan, e é por isso que facilmente nos conseguimos identificar com a personagem, apegarmo-nos a ela e compreendê-la.

Se nos perguntarmos que espécie de desenvolvimento conheceu a personagem de Batman na adaptação de Burton, a resposta inevitável é… nenhuma. No início de Batman, o alter-ego de Bruce já vagueia pela noite, para terror dos ladrões; em Batman Regressa, o herói continua a fazê-lo, sem conhecer qualquer mudança. Esta superficialidade da personagem principal é acompanhada por uma interpretação pouco expressiva de Michael Keaton, que fica alguns furos abaixo do arrebatador Christian Bale.

Caracterização dos Vilões: Pinguim vs. Harvey Dent

CARACTERIZAÇÃO DOS VILÕES: PINGUIM vs. HARVEY DENT

O Batman de Nolan é uma pessoa, a de Burton é um boneco. Se esta é, sem dúvida, uma das maiores críticas que se pode fazer aos primeiros filmes, também não se poderá negar que, aplicando-se a outras personagens, a unidimensionalidade é extremamente benéfica. A razão pela qual as personagens de Joker e Pinguim funcionam de forma tão divertida e autêntica nos filmes de Tim Burton é precisamente esta falta de profundidade. Eles são maus, sabem-no, e não se interessam por mais nada a não ser criar confusão! Não interessa saber bem porquê e parte do seu encanto reside aí. São vilões, altamente cartoonizados e só Tim Burton, com a ajuda de divertidos diálogos, os poderia criar com a teatralidade que exigem.

A teatralidade, no universo de Batman, é muito importante, pelo que, tendo em conta esse aspecto, a adaptação de Burton poderá ser considerada mais fiel em relação aos comics do que a de Nolan. A história de Batman é recheada de arquétipos, de figuras, de máscaras bizarras e excêntricas, e Burton conseguiu transmiti-lo na perfeição para o cinema (pecando, em contraposição, por não desenvolver Bruce Wayne). Quem mais, aliás, que Tim Burton para conseguir manusear de maneira tão prazerosa estas figuras?

O Pinguim é o exemplo mais paradigmático do tom adoptado por Burton em Batman e Batman Regressa. É uma caricatura, como se lhe exige. Abandonado em criança, cresce num jardim zoológico na companhia de vários pinguins. Torna-se um adulto, com o desejo de ser reconhecido e amado por Gotham, e de ser Presidente da Câmara. Quando não consegue, tenta matar todos os primogénitos da cidade. Christopher Nolan nunca pegaria numa figura tão caricata como esta, que se move num barco em forma de patinho amarelo. Não se enquadraria na sua visão da história do morcego. Mas… não serão estas figuras aberrantes – o Joker, o Pinguim, o Riddler – o que Batman tem de mais único?

Neste sentido, Batman – O Início e a O Cavaleiro das Trevas carece de algumas destas cartas fora do baralho, que são tão emblemáticas e características, e por que muitos dos fãs de Batman ansiavam. É uma concessão que Nolan decidiu fazer, a bem da veracidade da história. A adaptação deste realizador é, em tudo, mais condizente com o mundo real. Para além de Batman e Joker (que é a sua única personagem má, por natureza, sem qualquer espécie de motivo aparente), todos os outros vilões são credíveis, em termos de personalidade. Não há bonecos; há pessoas com capacidades acima da média, com bases bem reais e humanas.

Vejamos Harvey Dent: é-nos apresentado como um destemido procurador, um diferente tipo de cavaleiro, obstinado em pôr atrás das grades os criminosos de Gotham, pelo caminho da lei. Porém, uma perda significativa torna-o no Duas-Caras, um homem impiedoso e sedento de vingança. Os vilões de Nolan não são bem como os da DC Comics; não são vilões, aliás, são antes figuras ambíguas, complexas, com motivos conflituantes.

Se, por um lado, Burton escolheu o sentido de humor - por si tão bem empregue! – e o tom extravagante dos vilões das bandas desenhadas, Nolan preferiu o realismo (deturpando algumas personagens e um pouco a mitologia de Gotham City), caracterizado por grandes doses de negrume e pessimismo. Vitórias diferentes, que concedem às duas adaptações um estilo e frescor próprios, e que nos possibilitam ser apreciadores de ambas.

Joker vs. Joker

JOKER vs. JOKER

O verdadeiro protagonista do primeiro filme de Burton é Joker, interpretado por Jack Nicholson. À falta de um papel principal com alguma relevância, Nicholson toma as rédeas do filme e faz da sua personagem um poço de bom humor, sarcasmo e extravagância. A sua representação é fascinante e as acções de Joker ainda mais. Nunca saberemos o que irá Joker fazer a seguir, nem como reagirá ele a certos comportamentos. A queda para a teatralidade é notória: na pistola de quase um metro que enverga, na flor que esguicha ácido que tem ao peito e nos seus balões coloridos, cheios de uma toxina perigosa. Nicholson faz um trabalho fantástico, em tudo diferente do de Heath Ledger.

O Joker de Ledger é aterrador de uma forma que o de Nicholson nunca é. São os dois igualmente sádicos, dementes e dramáticos, mas o de Nolan é, para além disso, a razão por que a maioria das crianças, no futuro, terá medo de palhaços! O primeiro dança com Vicki Vale no cimo de uma torre de igreja, ameaçando-a; o segundo, sem meios termos, assassina Rachel. Acompanhando o tom das respectivas adaptações, o Joker de Burton é bizarro e faz-se acompanhar por divertidíssimas frases de efeito, enquanto o de Nolan, igualmente maníaco, é capaz de nos amedrontar.

À semelhança de Joker, Catwoman é outra das figuras mais notáveis deste universo, pelo que ambos os realizadores as incluíram nas suas adaptações. As dúvidas em torno de Anne Hathaway são justificadas, especialmente quando olhamos para Batman Regressa e notamos que Michelle Pfeiffer rouba todas as cenas em que aparece. Esta fantástica actriz – uma das preferidas de Burton – mostra-se absolutamente irrepreensível como Catwoman. O percurso de Selina é facilmente um dos mais interessantes do filme, deixando-nos rendidos à personagem. Pfeiffer será para sempre a Catwoman, e as cenas em que se lambe, como um verdadeiro gato, ou abocanha um pássaro, dificilmente serão esquecidas. Terá Anne Hathaway conseguido fazer um trabalho mais competente?

Entretenimento Puro ou algo mais?

ENTRETENIMENTO PURO ou ALGO MAIS?

Não fosse pelos seus diálogos e situações burlescas, os filmes de Burton seriam banais filmes de super-heróis. O sentido de humor é o que faz a diferença, em filmes que, de outra forma, mostrariam tão simplesmente uma batalha entre o Bem e o Mal.

A influência de Nolan sobre Batman é mais abrangente e profunda, na medida em que não se limita a ser um filme mediano, mas antes uma alegoria da vida real e de sentimentos reais. Os filmes de Nolan têm um subtexto, algo para se ler nas entrelinhas. São divertidos, à superfície, mas, num segundo plano, retratam temas que nos tocam a todos, como o medo, a raiva, o desejo de vingança e de justiça. Nolan dá-nos uma moral para a história, enquanto Burton só nos tenta, ainda que com sucesso, divertir com as suas personagens. Um é entretenimento puro, o outro é mais do que isso…

Conclusão

CONCLUSÃO

Da disputa entre estas duas adaptações – tão diferentes e deliciosas, à sua maneira -, qual a que sai vencedora? É difícil dizer. Burton e Nolan fazem trabalhos antagónicos, que, aparte a identidade da personagem principal, são em tudo distintos, e que merecem ser apreciados separadamente.

A experiência Burton é acompanhada por tudo o que este realizador nos tem habituado, ao longo da sua carreira: escárnio, diversão e cores garridas. Os seus filmes aproximam-se mais ao universo criado pela DC Comics, por este motivo. Já Nolan aposta na semelhança com o mundo real, e fá-lo magistralmente, imprimindo o retrato a cores escuras (até para se distanciar dos filmes fracassados de Joel Schumacher). Nolan sabe a história que quer contar e sabe exactamente como o fazer. Os seus filmes têm uma continuidade que infelizmente falta a Burton (Vicki Vale desaparece de um filme para o outro, tal como Harvey Dent). Em termos da representação de Joker, dá-se um empate: cada um à sua maneira, conseguem tornar-se inesquecíveis.

O que faz a diferença, a meu ver, é o cuidado na caracterização de Bruce Wayne. Nolan, simplesmente, fá-lo melhor. Não se pode culpar os estilos opostos dos dois realizadores; um desenvolvimento eficaz da personagem principal é fundamental, em qualquer filme, e Burton descuidou esse aspecto. Talvez por essa razão, o Batman de Nolan seja capaz de gerar mais entusiasmo. O seu cuidado a preparar a trama, a colocar as personagens onde é suposto, a apresentá-las com minúcia, é a chave para o enorme sucesso desta trilogia.

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