Especial Ridley Scott: 5 Filmes a ver antes de «Prometheus»

Sir Ridley Scott nasceu e cresceu no Reino Unido envolto numa educação militar. Após formar-se em 1963, candidatou-se a um trabalho como aprendiz de set designer naquela que era e continua a ser a maior empregadora audiovisual do mundo, a BBC. Acabou por ganhar reconhecimento através de duas produções de relativo sucesso, as séries “Z-Cars” e “Out of the Unknown”, esta última particularmente relevante pelo facto de ter representado o seu primeiro encontro com a ficção científica. Para poder ter proliferado no canal britânico e mais tarde ter visto o seu nome nos créditos da série de culto “Doctor Who”, Scott teve que passar um importante teste enquanto estagiário da BBC. Esse teste foi superado com a reinvenção de Paths of Glory, a intemporal obra-prima de Stanley Kubrick, que Scott transfigurou e transformou numa curta-metragem. Quando, anos mais tarde, questionado acerca da sua criação, Scott respondeu “… this was in the 60s with the BBC. Of course it was never aired, Kubrick would sue me, but I’ve always had tremendous respect for him”.

Embora tenha começado no mundo da caixa mágica, tendo treinado as suas capacidades de realizador ao leme de séries televisivas e trabalhado em cerca 2000 anúncios, foi no grande ecrã que Scott deixou uma marca para a posteridade. O seu primeiro filme, The Duellists, estabeleceu-o como um talento a observar, mas seria na ficção científica que o seu talento viria a deixar uma marca vincada na sétima arte, sendo responsável por duas das obras mais aclamadas de sempre. Que o mesmo realizador tenha feito Alien e Blade Runner, quando a maioria poderá apenas fantasiar com a possibilidade de fazer um filme com metade da qualidade de qualquer um deles, já é suficientemente impressionante. Mas depois apercebemo-nos de que Scott fê-lo num espaço de três anos, e o impressionante mais impressionante se torna. Partindo do mundo de possibilidades gerado por Star Wars, Scott resolveu abordar as temáticas do futuro e do espaço de forma ligeiramente distinta, explorando veementemente a psique das suas personagens em dois filmes adaptados de obras literárias.

Se é verdade que estes dois filmes representaram um massivo sucesso de crítica e ajudaram em muito a mudar Hollywood, estabelecendo Scott como um dos mais importantes realizadores dos anos 80, este operava, para todos os efeitos, em Hollywood, e os resultados de bilheteira não partilharam do mesmo tipo de equilíbrio. No que a Alien diz respeito, do modesto orçamento de 11 milhões de dólares, Scott conseguiu fazer com que a Fox encaixasse mais de 80 milhões. O caso muda de figura quando falamos de Blade Runner, cujo sucesso apenas apareceu anos mais tarde, tornando-se num filme de culto e comprovando a teoria de que foi, de facto, um filme à frente do seu tempo. A verdade é que a partir daí a carreira de Scott muda consideravelmente, não voltando a tocar na ficção científica durante mais de 30 anos. Pelo meio tenta o drama, o épico/guerra e até a comédia, com mais ou menos sucesso, notando-se uma falta de qualidade óbvia nos seus últimos filmes, tratando-se, afinal de contas, de um mestre. Até que 2012 chega e, com ele, Prometheus, que assume proporções gigantescas não apenas pela produção épica de que se trata, mas principalmente por representar o tal regresso deste titã a um género que mudou por dentro, provando que é possível fazer ficção científica séria, assente em ideias e ao mesmo tempo capaz de entreter as massas. É, afinal, o que se espera de Prometheus.

Até lá, e olhando para a carreira de Scott, elegamos os seus cinco melhores filmes:

5 - MATCHSTICK MEN

#5 – MATCHSTICK MEN (2003)

De longe um dos filmes mais subvalorizados da última década e o melhor trabalho de Scott já no século XXI. Não só estamos perante uma das últimas grandes interpretações de Nicolas Cage, como há a desmistificação de que o género em que se insere ainda pode funcionar, desde que filmado com a criatividade suficiente para não cair em armadilhas proporcionadas pelo próprio ímpeto aquando da escrita de algo “inteligente”. É um filme inegavelmente mais leve, descarrega várias doses de humor negro e apoia-se na capacidade dos actores surpreenderem-nos com truques de “ilusionismo”. Há um forte sentimento de dever cumprido ao ver este filme, não só porque Matchstick Men entretém grandemente, mas também porque acaba por ser recompensador na mensagem transmitida.

4 - THELMA & LOUISE

#4 – THELMA & LOUISE (1991)

Um dos filmes referência dos anos 90. Uma história de libertação e anarquia, contada através do molde do road movie. Elevou Brad Pitt ao estrelato e consolidou Gina Davis e Susan Sarandon como uma das mais brilhantes duplas do cinema dos anos 90. Poderia ser apenas um bom filme, mas o apurado e calmamente desenvolvido argumento, a implementação de um ritmo narrativo aprazível e a qualidade das interpretações fazem de Thelma & Louise algo mais do que um simples buddy movie. No elenco surgem ainda Harvey Keitel e Michael Madsen, mas o filme é todo ele de Sarandon e Davis, que, em sintonia perfeita, encarnam esta tocante relação que se desenvolve de forma subtil e desarmante. Um belíssimo filme.

3- GLADIADOR

#3 – GLADIADOR (2000)

Um dos filmes mais importantes que iniciou o novo milénio foi, sem dúvida alguma, Gladiador. Vencedor de cinco Óscares em doze nomeações, o aclamado épico de Scott trouxe à memória clássicos como Spartacus, Ben-Hur ou The Fall of the Roman Empire.”What we do in life echoes in eternity”, diz Maximus (Russel Crowe) a dada altura, e sente-se a clara intenção de Scott em fazer um filme de grande escala, muito no espírito desses filmes, por norma com temas histórico-religiosos, sets monstruosos e milhares de extras. Na sua essência, e mais uma vez muito à antiga, trata-se de uma comovente história de bravura e heroísmo em prol de nobres objectivos que servem os propósitos das mais profundas considerações acerca dos direitos humanos (numa altura em que estes não estavam nem perto de existirem). Há no trabalho do realizador um ímpeto calculista que visou oferecer algo mais do que uma linha narrativa básica e linear, apoiado numa composição magistral de Hans Zimmer e numa interpretação incrível de Crowe. Gladiador acabou por ser vítima de um certo cinismo colectivo, mas, tal como com os filmes mencionados, a emoção e sensação de arrebatamento surgem apenas e só da mise en scène reluzente que, contrastando a beleza da fotografia com o poder do drama, tocam qualquer um. Cinema no seu estado mais puro, portanto.

2 - BLADE RUNNER

#2 – BLADE RUNNER (1982)

Adaptado do livro “Do Androids Dream of Electric Sheep?” do mestre de ficção científica Phillip K. Dick, Blade Runner relata o tempo em que a integridade humana é ameaçada pelos denominados replicants (andróides perfeitamente concebidos com o íntimo desejo de serem seres humanos). Para combater e proteger a autenticidade humana, “Blade Runners” perseguem e abatem estes mesmos andróides, entre eles o mais mediático, de seu nome Rick Deckard (Harrison Ford) que tem como missão abater quatro replicants foragidos. Scott idealizou um cenário perfeito, contrastando unicamente com a filosofia de Dick, culminando num universo distópico com efeitos especiais fabulosos para a época e extremamente consistentes nos dias de hoje. Todo esse universo é irresistivelmente noir, culminando em sci-fi noir de grande amplitude técnica. A chuva intensa, os cenários escuros, nunca explorados em demasia mas ao mesmo tempo mais que apenas decorativos, e a mestria de Scott em tudo o que filma fazem desta obra o marco cinematográfico que se tornou e um dos filmes mais revolucionários das últimas décadas.

1 - ALIEN

#1 – ALIEN (1979)

In space no one can hear you scream.

Através de uma das taglines mais brilhantes da história do cinema, é dado o mote para um jogo psicológico invariavelmente intenso acerca da condição humana em situações extremas. Scott opta, e bem, por uma narrativa inicial pautada, dando a conhecer alguns dos espaços mais importantes da nave, a Nostromo. Daí em diante, torna-se num regalo visual poder observar o seu trabalho de câmara e direcção de actores. Alien é, em última instância, um exercício genial em tensão. O histerismo nem sempre é utilizado correctamente, pelo que esse é um facto que fica bem patente, mesmo aquando dos eminentes ataques do alien. Alien esse que é uma fabulosa criação de H. R. Giger e “interpretado” por um dançarino masai de seu nome Bolaji Badejo. Destaca-se ainda a excelente sonoplastia que cria uma tensão incrível, envolvendo-nos por completo e mantendo-nos na corda bamba durante os momentos mais críticos, enquanto Scott inventa e reinventa formas de fazer cinema.

1 Comentário

  1. Angelo Da Costa

    Excelente artigo , realizador marcante na minha vida como “fã” e viciado em cinema .

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