ESPECIAL TRON: De «TRON» ao seu Legado

Quando TRON: O Legado chegar às salas nacionais, no próximo dia 13, a grande maioria das pessoas que o verão (entre crianças distraídas pelas pipocas e pelos óculos 3D) não terá visto o filme que em 1982 lhe deu origem. Metade delas, atrevo-me a dizer, não saberá sequer da sua existência. E isso é mau mas simultaneamente compreensível. TRON foi, afinal de contas, um dos maiores flops de sempre da Disney, e quem o viu no cinema é uma espécie de ave rara. TRON: O Legado nunca o será (um flop), porque estreia depois de uma massiva campanha de promoção por parte da Disney, que não hesitou em dispor dos milhões mas que não abre mão do seu retorno.

Tudo isto para dizer que TRON: O Legado é precisamente isso: o legado do filme de Steven Lisberger e dos sonhadores que se atreveram a criar algo nunca antes visto, que mudaria o cinema, a forma como o vemos e como é feito. Nesse sentido, ao antever a sua estreia é importante olhar para trás, prestar a devida homenagem a esse filme e a quem o tornou possível, e ao porquê de terem sido 28 anos de espera para que Kevin Flynn voltasse a ser visto no grande ecrã. Porque TRON: O Legado é uma extensão de TRON, porque a história é importante, e porque se conseguirmos convencer nem que seja meia dúzia de pessoas a ver algo que consideramos relevante, dar-nos-emos por satisfeitos.

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TRON (1982)

TRON - 1982

Sempre que alguém está a ter dificuldades em descrever TRON (porque descrevê-lo é uma tarefa algo inútil), normalmente recorre à expressão “à frente do seu tempo”. Dizer que este filme, pela mão de Steven Lisberger e da Disney, foi pioneiro, é o mesmo que dizer que Avatar tem efeitos especiais. É uma redundância. Mas é uma redundância inevitável e perdoável. O mais importante para compreender o quão revolucionário TRON foi e continua ser, é situarmo-nos no tempo. Apreciar e criticar algo feito há 28 anos é um exercício tão difícil porque implica colocarmo-nos num tempo em que não vivemos, e que por isso não conhecemos, por mais que possamos ler e aprender. Estamos a falar de 1982, uma data em que os computadores ainda não faziam parte da vida das pessoas, em que os jogos jogavam-se nos centros comerciais e nos salões, em máquinas arcade que pediam uma moeda nova sempre que se perdia. A mera ideia de imagens geradas via computador era uma miragem. Uma miragem que existia muito vividamente nas mentes de pessoas como Lisberger e John Lasseter, mas uma miragem. A própria Pixar, que tornaria esta miragem em algo real, surgiria apenas quatro anos depois. E ainda assim TRON foi feito. E se não o fosse o cinema e o mundo seriam provavelmente diferentes.

Primeiro ancestral de todo e qualquer filme que não seja filmado em película e que use o mais pequeno efeito especial, TRON é tanto um filme como uma peça minimalista de design. É também uma prova inequívoca do compromisso da Disney para com a absorção de novos conhecimentos, novas tecnologias e formas de entreter pessoas de todas as idades. Quando pensamos no que o filme fez, nas ideias que introduziu e nas metáforas e alegorias a que recorreu (tecnologia, religião, natureza humana, toca em tudo isso), seria de esperar que este se apresentasse como algo sério e complexo. E é tudo isso e muito mais, mas consegue incrivelmente ao mesmo tempo ser simples e divertido, capaz de agradar e ser inteiramente compreendido por um adulto à espera de ser desafiado e estimulado, e por uma criança de 10 anos interessada em ver como é o interior de um jogo de computador. Por outras palavras, é aquilo que quisermos que seja, optemos nós por ver o que está escondido por trás dos sinónimos e da linguagem corporal ou por nos sentarmos com um saco de pipocas e desfrutar de um filme da Disney, com todo o divertimento, acção e simplicidade associados a tal nome.

TRON - 1982

TRON tem acção, drama, comédia, romance e mistério suficientes para manter qualquer pessoa entretida e interessada durante hora e meia. Isto segundo os critérios de 2011. Quando é considerado um marco cinemático, é-o principalmente pelo seu papel no rumo que o cinema tomaria em termos de tecnologia, mas não é esse o seu único valor. Se pusermos de lado os efeitos, profundamente datados (e que por isso deveriam ser sempre vistos com um filtro que removesse os critérios de exigência actuais), o filme manteria a sua elevada qualidade artística e importância histórica – mesmo quando visto sem o tal filtro. São muitas as sequências excitantes e de alto grau de exigência, entre as quais se destaca a dos lightcycles, que representa de certa forma o expoente máximo daquilo que TRON alcançou. Mais uma vez torna-se difícil pôr de parte os preconceitos e as influências que advêm de viver num século em que a tecnologia é um dado adquirido, mas este filme merece que façamos no mínimo um esforço, nem que seja pelas horas, dias e meses que aqueles que nele trabalharam investiram, e por tudo o que o seu trabalho originou.

Mas independentemente dos efeitos, esta é pura e simplesmente uma história divertida, inteligente e imaginativa que influenciou igualmente muitas outras. Tem sido refeita até à exaustão desde 1982 (homem vê-se no interior do mundo virtual que criou, que se vira contra ele), mas isso não lhe tira – ou não deve tirar – o mérito que possui enquanto veículo de pura diversão que é. Quanto a ser datado, o facto de o ser é, ironicamente, a prova viva do seu poder e importância pois pavimentou o caminho para tudo o que aconteceu depois. Se não fosse datado, significaria que aquilo a que se propôs fazer não teria tido efeito, que em 28 anos não teria ocorrido a evolução que possibilitou. Se não fosse TRON, filmes como Matrix ou Avatar nunca teriam sido feitos. E quando digo que nunca teriam sido feitos, não me refiro apenas à tecnologia, mas principalmente às ideias. Porque TRON é um filme de culto mas também um filme de ideias: umas simples, outras gigantes. E as ideias são aquilo que nos move a nós e ao mundo.

NOTA:

4 estrelas

O MELHOR:

Tudo aquilo que conseguiu e possibilitou em termos visuais. Todo e qualquer aspecto técnico, a música e Jeff Bridges como Kevin Flynn.

O PIOR:

A história consegue ser confusa e incoerente.

A FRASE:

“There’s nothing special about you. You’re just an ordinary program.” – Sark

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28 ANOS DEPOIS…


TRON Legacy - 2010

Chega-nos TRON: O Legado. E chega na altura perfeita, nem cedo nem tarde demais. Qualquer pessoa que já tenha visto TRON, reagiu de uma ou outra forma com o desabafo “este filme devia ter uma sequela.” O original, tendo sido pioneiro no uso do computador em termos de efeitos especiais (e tendo sido desqualificado pela Academia na categoria em questão por “ter feito batota”), desenvolveu um estatuto de filme de culto ao longo dos anos, com legiões de geeks nascidos nas décadas de 70 e 80 a pô-lo num pedestal e a usar orgulhosamente as suas t-shirts e posters, precisamente por ser algo que nunca pertenceu a 1982. Como tal, sempre se soube que uma sequela apareceria um dia, para homenagear tudo o que TRON significou, corrigir, por assim dizer, o que fez ‘mal’, e criar pela primeira vez tudo o que em 1982 existia apenas na teoria.

Novamente com o imenso poder da Disney do seu lado (de onde vêm os milhões necessários para fazer um filme destes), TRON: O Legado situa-se cerca de 20 anos depois da acção do original, centrando-se na personagem de Sam Flynn (Garrett Hedlund), filho de Kevin Flynn (Jeff Bridges) que duas décadas antes havia desaparecido sem deixar rasto, tudo isto depois de ter escapado à grid, mundo virtual para onde se tinha teletransportado, com a ajuda do programa Tron (Bruce Boxleitner). Já crescido e principal accionista da empresa criada pelo pai, que tem ideias diferentes em relação à forma como a tecnologia deve ser gerida e distribuída, Sam recebe uma mensagem do pai, que o leva ao seu velho salão de jogos. Ao tentar descobrir aquilo em que Flynn havia estado a trabalhar, acaba também ele por ser transportado para o mesmo cyber-universo criado pelo seu pai, sobre o qual lhe contava histórias quando era criança. A grid que Sam encontra, contudo, não é a mesma dessas histórias, assemelhando-se antes a uma ditadura em que os utilizadores não são bem-vindos, comandada por CLU, um programa criado por Flynn à sua imagem que se revoltou contra o seu criador.

O grande desafio de TRON: O Legado, para além de estar à altura do seu predecessor, é precisamente ter o mesmo impacto que o original. O que não será fácil, já que os tempos não poderiam ser mais diferentes. Hoje temos um novo filme em 3D todas as semanas, mas contamos pelos dedos aqueles em que a tecnologia foi genuinamente bem empregue. Cabe ao estreante Joseph Kosinski, especialista em efeitos especiais, a tarefa de mudar isso, dispondo da possibilidade de filmar inteiramente em 3D, com câmaras IMAX do mais evoluído que o mundo já conheceu (tecnologia de que James Cameron dispunha em menor escala com Avatar). TRON: O Legado tem assim a responsabilidade e ao mesmo tempo a vantagem de poder pela primeira vez levar o potencial do 3D até ao seu expoente, coisa que o mundo ainda não viu. Esperemos que a história se repita, que tenhamos em mãos algo tão único e revolucionário como o que 1982 trouxe ao cinema – desta vez sem ser batota.

NOS CINEMAS A 13 DE JANEIRO


11 Comentários

  1. Pedro, na verdade eu já assisti. Já está sendo exibido aqui no Brasil. Não gostei tanto quanto esperava. Concordo que visualmente é realmente incrível, mas era pedir muito que tivessem se esforçado um pouco mais no roteiro e no elenco e não só na tecnologia? Tudo bem! Eu sei que a intenção era fazer uma grande aventura de ficção, mas não custava nada, não é mesmo?
    Estou acompanhando o especial Tron que está sensacional.

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