Exclusivo: Entrevista a Eduardo Nunes, o criador do «Sudoeste» Brasileiro

Eduardo Nunes falou com o Ante-Cinema sobre Sudoeste, o filme que o trouxe este ano ao IFFR 2012 e que esteve em competição pelo Tigre 2012. O realizador desvendou alguns segredos do seu próximo projecto, presente em Roterdão à procura de financiamento na plataforma Cinemart.

Sudoeste é um retrato (mono)cromático da pluralidade da percepção do tempo e do espaço. A acção decorre uma vila isolada do mundo e recriada num ponto cardial nunca referenciado nos mapas do território brasileiro. Clarice é a mulher menina que acompanha desassossegada a existência obscura da sua própria realidade num descompasso marcado por três tempos distintos.

ANA BERNARDO (ANTE-CINEMA): Se lermos atentamente o que a crítica brasileira tem a dizer sobre o Eduardo, vemos muitas vezes referenciado como uma das promessas do cinema brasileiro. O que é que isso significa para si?

EDUARDO NUNES: De certeza que quem o disse era meu amigo (risos). A verdade é que este é um projecto antigo, com cerca de oito anos. As pessoas que pertencem ao meio do cinema, que mesmo no Brasil é um meio muito pequeno, criaram uma expectativa muito grande em relação a este projecto. Tenho uma carreira de curtas bastante interessante, algumas delas exibidas aqui em Roterdão e em outros festivais internacionais importantes. No ano 2000 decidi abandonar as curtas-metragens e dedicar-me inteiramente a este projecto. E este não era um projecto fácil de concretizar há dez anos atrás, porque de certa forma não encaixava naquilo a que as pessoas estavam acostumadas no cinema brasileiro. O tempo foi passando e as tendências mudaram, e tal como se pode ver pela programação de Roterdão, há  uma geração nova de realizadores brasileiros que estão a apostar num cinema diferente, que trabalha mais a linguagem e que procura dialogar com públicos diferentes. E foi este ambiente que se vive actualmente no cinema brasileiro que ajudou a que o meu filme fosse compreendido.  Por isso acho que na verdade sou uma antiga promessa que demorou para se realizar.  E deixa-me muito feliz que mesmo com todas essa expectativas, que às vezes podem sair furadas, as pessoas estejam a receber bem o filme.

AB: E já teve alguma reacção das pessoas que viram o filme?

EN: Acabei de vir de uma exibição, e foi muito emocionante. No final as pessoas aplaudiram de pé, duas vezes. Alguns jornalistas vieram falar comigo, e as reacções foram muito boas. As pessoas estavam muito entusiasmadas (até demais, na verdade! (risos)). E para mim, que respeito muito a crítica, o contacto com o público é muito valioso. O crítico no fundo é uma pessoa que sabe expressar-se de uma forma mais técnina. E emocionei-me com o facto de no final do filme as pessoas terem vindo ter comigo e dizer “Obrigada pelo seu filme”. Deixou-me com a sensação de que dei alguma coisa aquelas pessoas, e esse tipo de retorno é a melhor parte do meu trabalho.

AB: Eu vi o filme e aquilo que mais me impressionou foi a composição da imagem, a fotografia,  os planos que o Eduardo concebeu. Em que medida esses foram os pontos chave para construiur esta história e explicar a passagem do tempo num filme que é em si uma história  sobre o tempo?

EN: A verdade é que uma das coisas que poderia ter acontecido era eu ter feito um filme mais ágil, mais curto. Mas uma das minhas preocupações foi exactamente evitar isso. A história de Sudoeste tem dois tempos distintos óbvios: o tempo da vida da menina e o tempo da vida das outras pessoas. Mas a verdade é que também existe um terceiro tempo, o tempo do próprio filme e dos espectadores presentes na sala. E para mim era importante que esse tempo também fosse percebido. E por isso há muitas imagens contemplativas, sons que também nos transportam para aquele ambiente. Desde o início que trabalhei para que o filme funcionasse na tela, no escuro. Construí o filme de forma a poder jogar com o espaço físico da sala, para contar a minha história ultrapassando as possibilidades que vao para além da tela.

AB: O Eduardo pertende continuar a explorar a dimensão humana nos seus próximos projectos? 

EN: Este ano Roterdão está a ser muito especial para mim. Trago comigo “Sudoeste”, que está em competição e que foi desenvolvido graças ao fundo Hubert Balls, e trago também o meu novo projecto que está a ser apresentado no Cinemart. Este novo projecto é baseado na obra de Albert Camus “Morte Feliz”.  “Morte Feliz” é a história de um homem que está muito doente e que pede a um outro homem que o mate e que viva a vida que não lhe foi possível viver. E assim, o “assassino” começa a viver a vida do falecido em busca da felicidade alheia. “Morte feliz” acaba por se traduzir na história de um homem que antes de procurar a felicidade, procura o que seria a felicidade.  Se compararmos com a Clarice de  Sudoeste, ela também também pressegue sentido para a sua vida. Acho que os filmes, apesar de terem temáticas distintas, têm muitos pontos em que se cruzam. E sem dúvida que essa questão da introspecção e da busca do ser humano enquanto ser humano me atrai bastante.

AB: E o existencialismo de Camus vai ficar na Europa ou vai atravessar o Atlântico e desembarcar no Brasil?

EN: O Romance original passa-se na Argélia e no Leste da Europa, e a nossa adaptação vai decorrer na América do Sul. O filme começa no Pacífico e vai até ao Atlântico, costa a costa. No fundo esta é uma história em que a acção decorre na cabeça do personagem. O importante para o personagem é o deslocamento em si, e não o espaço em que ele se desloca, por isso mesmo a acção poderia passar-se em qualquer lugar do mundo. Além disso, eu não me sentiria bem em filmar em frança, não é a minha lingua, não é a minha culura e para mim eu acho que devo mostrar no filme a minha interpretação como brasileiro que leu aquele livro e soube transportar e interpretar a história para o um espaço que é meu.

AB: Tratando-se de Camus, acredito que o Eduardo tenha noção de que é um projecto arriscado. Como é que têm sido as reacções das pessoas no Cinemart?

EN: O Cinemart é uma plataforma um tanto ou quanto esquizofrénica. Temos encontros que duram cerca de meia hora e durante essa meia hora temos que explicar o nosso projecto. Durante o dia de hoje tive duas experiências bastante interessantes e opostas. Conheci um americano muito dinâmico que me perguntou sobre questões muito práticas sobre a produção do filme: quanto é que se ia gastar, quanto tempo ia durar a filmagem, etc. E num destes outros encontros conheci um francês que queria discutir comigo a minha visão sobre Camus, e eu não quis acreditar que ia ter que discutir Camus com um francês, concerteza que não ia ganhar “essa parada”.  Mas eu gosto muito desta plataforma, os profissionais que fazem parte dela são pessoas com muita experiência e que em menos de cinco minutos sabem fazer uma avaliação muito correcta do projecto que lhes está a ser apresentado. No meu caso específico, eu acredito que o retorno de Sudoeste vai ajudar este novo projecto e espero que daqui a 3 anos estejamos de volta a Roterdão.

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