
Inserido na categoria “Bright future” do Festival de Cinema de Roterdão 2012 esteve em exibição o documentário português A Arca do Éden do realizador Marcelo Felix. O filme viaja entre o Norte do planeta e muitos registos gravados em 35 mm. Marcelo Felix soube como nos revelar o “Estado Natureza” que a própria Natureza encerra em si. Despe-a das componentes humanas que o Homem, e a sua sistemática, lhe quiseram impor. Os viajantes confundem-se, afinal a preservação e a descoberta podem se antipodas de uma mesma viagem. O espetador, às vezes tripulante outras apenas e só observador, inquieta-se. Afinal não há respostas e as perguntas tornam-se cada vez mais complexas. Não há um destino definido, apenas viagem, e a direção do vento é (tão) incerta.
ANA BERNARDO (AC): Como surgiu a ideia de juntar no mesmo filme a conservação da Natureza e a conservação da memória, do Cinema?
MARCELO FÉLIX (MF): A inauguração do Banco de sementes em Svalbard constituiu uma oportunidade para o meu projeto. E eu achei que era também um bom momento para juntar, a isso, algumas das minhas reflexões acerca da preservação do Cinema e da memória. Queria sugerir qual poderia ter sido o antecedente deste banco, e isso levou-me à história que constitui o meu filme. A história de uma arca de plantas que vai singrando pelo mundo com o intuito de proteger da inundação todo o património botânico. Durante a viagem surge a necessidade de zelar para que o conhecimento e a imagem, daquelas plantas que fazem parte da arca, não se percam. Coloca-se por isso a questão do que seria se, no caso de uma possível catástrofe, se perdessem fisicamente as espécies, qual seria a forma de transmitir o que elas foram para nós e aquilo que elas são em si mesmas. Poderíamos fazer um desenho ou produzir um registo visual. No entanto também podemos chegar a uma questão mais sofisticada, é que afinal para além do registo visual é necessário fazer o registo do movimento da planta que conterá em si a maneira de ser da própria planta. E por isso é como se nesta viagem se intuísse e se pudesse inventar o próprio Cinema. Trata-se de algo muito orgânico, esta possibilidade de fazer uma analogia entre o Cinema e a Botânica. A preservação de uma coisa e da outra porque no fundo os problemas são os mesmos. Problemas no que toca não só à precariedade das instituições que trabalham com estas duas realidades, como também a impossibilidade de acompanhar o que se vai descobrindo enquanto se sistematiza o conhecimento. De certa forma só se o tempo parasse é que seriamos capazes de equilibrar a descoberta e a preservação. Acredito que temos uma postura de preservar guardando, e o guardar que é ao mesmo tempo “tirar da vista”. O banco de sementes é uma metáfora belíssima da fragilidade desse equilíbrio, as coisas ficam protegidas mas ao mesmo tempo ficam esquecidas. Acho que são questões que devem ser levantadas. Parece que estamos constantemente a adiar a fruição, e o significado das coisas nas nossas vidas apenas porque não há tempo. Parece que temos sempre esta tendência de correr atrás das coisas sem pensar nelas.
AC: Lineu foi o primeiro a arrumar espécies num sistema taxonómico super organizado, será que não é um pouco redutor compartimentarizar o conhecimento dessa forma?
MF: Eu acredito que as regras estão sempre a ser alteradas, as espécies também mudam de nome e passam a ser consideradas noutro grupo. É algo que não altera a realidade e que consome imensos recursos. Certamente que abre horizontes mas também consome a atenção que deveria ser dada às coisas em si. Nós continuamos a ser péssimos fisionomistas com o que nos rodeia. Uma árvore é uma árvore, e sabemos pouco mais do que isso. E essa foi mais uma das motivações do filme, essa ideia de que aquela viagem tenta fazer qualquer coisa para que ganhemos uma maior intimidade com a Natureza. E cinematograficamente não foi fácil, filmar uma árvore é algo muito difícil. Deixou-me muitas vezes perplexo, e quis muito transmitir isso. Não segui com nenhuma familiarização com determinada espécie, quis mostrar a Natureza em si durante o desenvolvimento do filme. Quis mostrar também a dicotomia dos viajantes da Arca. Todos eles têm o mesmo tipo de interrogações, os mesmos medos, e a mesma necessidade de abstração, amnésia. Fingem que tudo isto tem uma lógica, eu acredito que há um lado de fingimento enorme na questão da preservação. Supomos que as coisas terão um tipo de arrumação e catalogação eterna, como se estivéssemos permanentemente a ampliar um arquivo e a controlar o nosso usufruto do conhecimento, como se a nossa postura perante as coisas daqui a alguns séculos pudesse ser a mesma. Acho que deveríamos tentar incorporar na nossa vida, além desta ansia que temos de controlar as coisas apropriando-as, a capacidade de aprender a conviver com elas.

AC: Encontrei muito do Werner Herzog no filme, é uma influência ou é apenas uma ilusão devido aos cenários polares que também ele usou em “Encontros no Fim do Mundo”?
MF: Há algo de agradável nessa analogia, no sentido em que Herzog é um cineasta que se coloca a muitos desafios. Tem um gosto pela vastidão e pelos momentos de enfrentamento da Natureza, levando-o a cenários pouco percorridos numa postura muito natural. No fundo como se ele fizesse parte. Eu também percorri cenários naturais, e tentei que os cenários falassem por si de forma a levar as pessoas a refletir sobre eles. Da mesma forma que Herzog não consegue estar calado, eu também não consigo.
AC: Ao contrário do que Herzog nos habituou esta “Arca do Éden” não é apenas uma narrativa é acima de tudo um diálogo. Porquê um documentário-diálogo?
MF: O texto do filme é em si mesmo um acumular de textos que correspondem a vozes diferentes. No início do projeto imaginei mais vozes, fui reduzindo o número de vozes mas nunca quis deixar de estabelecer esse diálogo ambíguo que decorre em várias épocas. Temos o diário escrito por uma tripulante que é um anacronismo, como tantos outros ao longo do filme. Temos um diálogo que se estabelece com o narrador intertítulos. Temos um diálogo de costas voltadas que converge e diverge à vez com a voz que ouvimos, esse diálogo é de extrema importância e vai levantando muitas hipóteses ao longo de todo o filme. Por fim temos ainda a voz do viajante, que é a encarnação das duas criaturas que imaginei como os descendentes do projeto da Arca. Os cientistas, exploradores que vão em busca do conhecimento para que os conservadores sistematizem e preservem. Esta dicotomia entre os que partem, os que ficam. Estas vozes refletem sobre algo que inevitavelmente evoca o movimento, o tempo não pode parar e nós movimentamo-nos como podemos numa viagem que pela falta de respostas tende à desolação.
AC: Como é que decorreu o processo de seleção das imagens de arquivo que usou no filme?
MF: Uma parte das imagens correspondem a filmes dos quais gosto muito e que me pareceram cumplicidades narrativas imagéticas ideais para este projeto. Apoiam a narrativa e permitem, a quem os conhece, acompanhá-los e ter acesso a determinadas leituras que de outra forma não seriam possíveis.
Por exemplo a ideia da corda como algo de seguimento, caminho, iniciativa e passagem do tempo, existe no filme Fahrmann Maria do Frank Wisbar. É um filme que contém em si a própria estética do cinema mudo, e no qual a protagonista mata a morte. É uma figuração da morte, nesse filme a morte acaba por matar a própria morte. Para mim a conservação é um pouco isso, adiar, ter a esperança de que através de muitos estratagemas possamos vencer a morte. Procurei também outras imagens para ilustrar algumas das passagens do filme, tive a colaboração do EYE e de um arquivo italiano de filmes de família que tem filmes muito antigos. A partir do material que me foi sugerido acabei por fazer uma seleção que considerei adequada.
Construí também a história do falso filme mudo, e que acaba por ser a minha mistura pessoal de material de diversas proveniências. Há dois atores principais, que foram escolhidos por mim num casting. Foi muito divertido procurar a atriz perfeita para personificar a personagem da assistente do cientista. O cientista que descobriu a cura para a lepra, e que afinal acabou por ver perdida a árvore que lhe garantia essa cura.
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