IndieLisboa’12: «Inni» – No mundo de Sigur Rós

Num ano marcado pela quebra vertiginosa de qualidade da programação em termos de competições e, especialmente, do “Observatório” (secção onde passam aqueles filmes com maior reputação e, logo, capazes de levantar mais pessoas às salas), o IndieLisboa mantém uma outra secção como uma das suas maiores – e discretas – estrelas. Chama-se IndieMusic e acompanhou o festival desde o início, sendo responsável por alguns dos filmes mais especiais que por lá passaram nos últimos nove anos. Com mais ou menos dinheiro, 2012 não é excepção e a encabeçar a secção está Inni, filme-concerto dos islandeses Sigur Rós, uma das mais importantes e diferentes bandas do pós-rock moderno. A reputação da banda em Portugal (segundo eles é o seu país favorito onde tocar) fez-se notar, com muitos fãs presentes no São Jorge para ver ou recordar, depois de 2008, último concerto da banda por cá, a magnitude que é um concerto dos Sigur Rós. E Inni é perfeito a fazer precisamente isso, a lembrar ou a introduzir o universo audiovisual muito próprio em que este quarteto vive e a beleza – tanto musical como visual – de que são capazes.
Talvez este primeiro parágrafo seja suficiente para se perceber que, também eu, sou um confesso fã, que também eu estive presente no Campo Pequeno em 2008 (tour de que fez parte o concerto filmado por Vincent Morisset, em Londres), daí a curiosidade em perceber a forma como este poderia sequer traduzir a experiência sensorial que é assistir a um espectáculo que merge minimalismo com uma atmosfera de música ambiente e, ao mesmo tempo, guitarras épicas e berrantes, tocadas com os dedos e com violinos, com vozes angelicais que cantam numa língua que não existe. A estratégia de Morisset (em colaboração muito estreita com a banda, principalmente Jon Thor Birgisson, principal responsável pelo som) passou, como seria de esperar, por uma abordagem impressionista e quase abstracta ao concerto, reflectida numa fotografia a preto-e-branco crua (com desfoques, uso propositado de grão, etc.) que enfatizasse a emoção da música, os membros da banda e, no pouco em que é visto, o público. Entrecalando tudo estão algumas imagens de arquivo da banda, de entrevistas falhadas a brincadeiras de bicicleta e depoimentos que traçam uma pequena cronologia dos Sigur Rós. Mas o filme é o concerto, e Morisset capta-o como algo absoluta e devidamente épico que é, enchendo-o, nos seus curtos 74 minutos, com feixes de luz que piscam constantemente e quase cegam os mais sensíveis (tentanto, mais uma vez, colocar-nos lá) e encenando-o como se a câmara pertencesse ali, seguindo, de forma natural, os quatro músicos, com destaque óbvio para o sempre dramático e bizarro Jónsi, líder que enche o palco com uma guitarra, uma voz e roupas estranhas, acompanhado pela bateria frenética de Orri Pall, que usa, simbolicamente ou não, uma coroa.
Inni foi lançado, em 2011, em quatro formatos (vinil, DVD, Blu-ray e CD) e é, na prática, uma espécie de colecção de greatest hits, isto da parte de uma banda que, pela sua própria natureza, nunca terá um álbum de greatest hits. O concerto reflecte necessariamente isso, reunindo algumas das mais emblemáticas músicas numa altura em que a banda apresentava o seu quinto disco e tentava o impossível: não se repetir. É, forçosamente, um objecto de culto para fãs desta banda muito especial mas também um exercício em estética fascinante, até para quem nunca tenha ouvido uma única música. Os primeiros dificilmente ficarão indiferentes aos clips destes quatro rapazes a tocar num pub qualquer, aos braços levantados e iluminados, aos dedos a voar num teclado e àquela voz quase alienígena que os transporta imediatamente para um outro mundo que não este. Os restantes deviam fazer o mesmo, porque é um mundo onde qualquer um devia viver. Pelo menos durante 74 minutos.
