Mini Críticas Ridley Scott – «Hannibal»

Dez anos após O Silêncio dos Inocentes, Ridley Scott deu continuidade à história do psicopata mais famoso do mundo. Hannibal Lecter, que outrora se tinha tornado fonte de informações para o FBI e criado uma peculiar ligação de proximidade com a inspectora Clarice Starling, torna-se agora o alvo de uma busca implacável, após escapar das instalações onde há anos estava retido.
O motivo pelo qual Hannibal não se pode orgulhar de pertencer à lista dos filmes memoráveis de Ridley Scott é o inversamente proporcional ao que tornou O Silêncio dos Inocentes uma referência para o cinema: o factor suspense. É o que nos prende e evita o aborrecimento em policiais do género, a imprevisibilidade, a pergunta que parece eterna durante as poucas horas de filme, «o que será que vai acontecer a seguir?». Hannibal falha porque coloca o espectador do lado de trás das câmaras. Ridley Scott que tão bem executou a mestria da insinuação em Alien, agora coloca os trunfos em cima da mesa logo no começo do jogo. Do início ao fim, sabemos que Lecter passeia descontraidamente pelas ruas de Florença enquanto a agente Starling (desta vez interpretada por Julianne Moore) lhe segue o rasto. Também sabemos que há um sem número de gente que planeia capturar o assassino, conhecemos-lhes os motivos e os respectivos planos. Há pouco para descobrir.
É inevitável que se estabeleça a comparação com o filme antecessor, de uma qualidade imensurável. O paralelismo certamente elevou a fasquia para esta sequela e, consequentemente, também antecipou a desilusão. O Silêncio dos Inocentes insinua, Hannibal mostra; O Silêncio dos Inocentes é puro jogo psicológico, Hannibal é sangue e estupefacção. Esta incursão sanguinária não é, contudo, totalmente censurável, já que a película tem um posicionamento diferente da anterior. Aqui trata-se de descortinar a mente de um assassino que retira prazer de estuprar corpos e ingerir carne humana. O espectador é convidado a entrar na mente de Hannibal, a seguir os seus assombrosos devaneios e a entender as suas motivações, não há como fugir ao confronto com o lado mais negro do ser humano. E, que não haja a menor dúvida, esse confronto não teria tido a mesma intensidade se no papel do temível canibal tivesse estado outro actor que não o enorme Anthony Hopkins.
Faltou aliar um guião inteligente à produção competente e bem estruturada. Faltou saber dar “mais por menos”.
