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Crítica: «A Estrada» – O verdadeiro Apocalipse

4 Fevereiro 2010 Visto 2.584 vezes Escrito por: Costas Mandylor 8 Comentários

Já há algum tempo para cá que levo constantemente com estas novas modas que parecem pegar como uma pastilha elástica que teima em sair do sapato. As vampiradas e os fins do mundo precoces parecem ter vindo para ficar durante uns bons tempos. Primeiro foi a saga de Stephanie Meyer adaptada para o grande ecrã, que ressuscitou a curiosidade mórbida pelos mortos-vivos de dente afiado, e revolucionou o mundo dos putos geração Morangos com Açúcar. Depois foi a vez dos zombies e dos filmes que alertam de forma pretensiosa cada vez mais para a iminente destruição do planeta Terra. O que virá a seguir? Tudo parece seguir o rumo do fim do mundo. E não é que a ficção por vezes transcende o papel e a tela torna-se realidade? Veja-se o cataclismo no Haiti. Não tenho dúvidas que alguém vai pegar nesse trágico acontecimento e torná-lo um filme, possivelmente até candidato aos Óscares. De tanto agoirar será inegável dizer que alguém previu acontecimentos como este. Aos filmes que se fazem sobre a destruição, não seria de estranhar.

The Road

Mas abreviemos a conversa. Aqui o Costas veio para vos falar precisamente do fruto de um desses fascínios apocalípticos. O mais recente filme do actor Viggo Mortensen, ou se preferirmos, o mais recente filme do realizador John Hillcoat, intitula-se de A Estrada (2009). Não meus amigos, não se trata de um remake do filme La Strada (1954) de Federico Fellini. Trata-se de uma adaptação da obra literária de Cormac McCarthy, levada a cabo pelo argumentista Joe Penhall. Confesso que quando vi o trailer deste filme tive vontade de espancar o vizinho do lado. Explosões, tiros, pessoas a fugir, uma verdadeira homenagem a 2012 (2009). A minha relação com o realizador John Hillcoat também não é das mais famosas, uma vez que fui rejeitado para um dos papéis do seu filme The Proposition (2005). De qualquer das formas não achei lá muita piada, daí considerar seriamente a hipótese de que A Estrada pudesse enveredar por caminhos semelhantes.

Mas como aqui o vosso actor preferido não é de guardar ressentimentos, decidi reconciliar-me com o amigo John Hillcoat, pôr uma vestimenta de gala, arranjar um belo de um gajedo digno da companhia do galã Mandylor, pedir emprestado um carrão potente a um dos meus amigos mais ricos que eu, e rumar a um dos cinemas da malta badalada. Demorei pouco a perceber que estava perante um dos melhores filmes pós-apocalípticos de que há memória. Confesso que não li o romance de Cormac McCarthy, mas a julgar pelo excelente Este País Não é Para Velhos, e por ter sido galardoado com o Pulitzer para Melhor Ficção por A Estrada, não haverá grande margem para dúvidas quanto à qualidade do material original.

O filme é narrado pelo personagem de Viggo Mortensen, onde somos introduzidos no que aparenta ser o mundo depois de devastado por algum acontecimento catastrófico do qual nunca somos especificamente esclarecidos. Acompanhamos um homem e o seu filho numa jornada rumo ao sul dos E.U.A. em busca de condições climatéricas que favoreçam a sua sobrevivência. Pelo caminho exploram superfícies comerciais abandonadas, casas sem dono, carros, e tudo o que lhes possa dar energia para caminhar mais um dia. A precaução é manterem-se afastados da estrada. Por lá pára a saloiada estilo Mad Max, com camiões e metralhadoras, que pela escassez de alimentos desenvolveram um gosto especial pelo canibalismo. Flashbacks breves de quando Mortensen era limpinho e tinha uma mulher para lhe lavar a roupa, são introduzidos ao longo do filme para que nos apercebamos de que aqueles que acompanhamos, outrora já tiveram um resquício de humanidade. O contraste entre a beleza das suas vidas passadas com a destruição do mundo é de um realismo soberbo, levando o espectador a pesar com sinceridade, o que seria de nós se algo semelhante acontecesse.

The Road

Esqueçam 2012 e qualquer filme apocalíptico que já viram. A Estrada não me parece de todo, uma longa metragem apenas para render cheta. Até porque não é de visionamento fácil. Havia meia dúzia de marmanjos a dormirem pesadamente na sala. A beleza deste filme está, essencialmente, no realismo de todos os recursos paisagísticos que estão presentes no filme. Admito que em anos e anos de experiência cinematográfica, aqui o vosso Costas, nunca viu nada que se assemelhasse a isto. Ainda neste momento me é difícil compreender onde é que Hillcoat foi encontrar aqueles locais. As notas de produção que consegui catar – não vou especificar como – indicam filmagens na Pennsylvania, Louisiana e Oregon. Um antigo parque de diversões que ardeu em Fevereiro de 2008 foi utilizado nas filmagens, assim como as praias de Presque Isle State Park em Erie, na Pennsylvania. Mas sem dúvida que o mais arrojado foi aproveitar os cenários de destruição do furacão Katrina que desolou a cidade de Nova Orleães em 2005. Tudo o que vemos meus caros é, portanto, real. O mais marcante neste visionamento é que podemos efectivamente sentir esse fim do mundo. Os personagens não têm nome, o que nos faz sentir que naquele cenário especifico, a destruição chegou inclusivamente aos humanos, a um nível em que a esperança é coisa que deixou de ter significado.

Os refrigerantes, os enlatados, e as memórias passadas de uma Charlize Theron, são a única coisa de que temos percepção. Facto esse, que nos leva a ver tudo o que conhecemos pela primeira vez através dos olhos do filho, uma vez que, ironicamente, nasceu durante o cataclismo. Logo, o seu conhecimento dos prazeres que nós humanos vivemos, é nulo. A cena da Coca-Cola é de uma sensibilidade magistral. É na relação pai e filho que sentimos essa esperança aparentemente morta da humanidade, esperança essa reflectida na juventude do filho. O pai apenas possuí como forma de defesa um revólver com duas balas. Contudo, não pensa utilizá-lo como forma de defesa, mas sim como a última forma de escapar à vida: uma bala para ele e outra para o miúdo. Mas não se enganem. Isto não é o final de Eu Sou a Lenda (2007) ou do terrível The Mist (2007). Não há clichés de qualquer espécie em A Estrada. A incerteza da continuidade do mundo é quase tão certa como termos consciência de que perante aquele cenário, pouco mais acontecerá. Mas afinal, o filme é feito por um humano como nós. Como tal, a metáfora de que o filho fala no filme – ‘carrying the fire’ – é essencialmente a esperança que existe em todos nós, e que apenas se extinguirá com o desaparecimento do último humano. Um filme que pôs aqui o Costas de lágrima no canto do olho.

NOTA MANDYLOR:

Photobucket

O MELHOR:

A produção do filme é de se lhe tirar o chapéu. Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee protagonizam uma das melhores duplas do ano. O ritmo lento e repetitivo do filme transporta-nos para o ambiente necessário. A banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis ao bom estilo de The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007) é indescritível.

O PIOR:

Nada significante a apontar. Pensar que um dia poderemos estar naquela situação.

A FRASE:

‘You have to keep carrying the fire.’ – The Man

8 Comentários »

  • Nasp diz:

    Este filme deixou-me bastante atormentado…. no sentido de que consegui transmitir de forma exemplar todas aquelas sensações de mau estar, e de agonia vividas pelas duas personagens vagabundas.

    Gostei do filme…. mas se sobesse como era talvez não o tivesse visto, é filme para ser visto por “mentes fortes” tal o seu realismo!!!

  • Ricardo V. diz:

    Concordo plenamente com a crítica. Este The Road é mesmo “o verdadeiro apocalipse”! Excelente, sem dúvida. Um dos melhores do ano e ainda vamos no início!

  • Nekas diz:

    The Road é muito mais que uma história pós-apocalíptica é mais uma história familiar onde se demonstra os riscos que se tem de forma a manter a família feliz, um exemplo a seguir. E não é um blockbuster, aliás, foge completamente a esses panoramas possuindo soberbas interpretações e uma extaordinária banda-sonora.

    Abraço
    Cinema as my World

  • PATRICIA diz:

    Sim o filme deixa a sensação de medo impregnado nas nossas expectativas de futuro, mas apesar desta constatação, é surpreendente verificarmos quão grande é a distancia entre os corações repletos de amor e aqueles possuídos de maldade. Portanto: Vale a pena amar e ser amado(a)….

  • Aloysio Letra diz:

    Gostei bastante. Infelizmente estão preparando mal o público, anunciando em algumas salas aqui no Brasil, como se tratasse de um filme de suspense, quando na verdade é um (ótimo) drama.
    O resultado é que muitas pessoas não entendem o propósito da narrativa e sua internalidade, pois esperam um filme apocaliptico com exploxões e catastrofes mil.

    Quando as pessoas esperam conflitos externos e ação (atividade) demais e o filme não tem isso pra oferecer, ocorrem equívocos devastadores.
    Na minha opinião figura entre os melhores filmes de apocalipse dos últimos tempos, com interpretações ótimas, clima tenso e trilha sonora de matar (Nick Cave é Fodástico).

    “A estrada” explora conflitos internos do personagem principal e a relação com seu filho “pós-fim-do-mundo”. É isso, simplesmente. Manutenção da “humanidade” (manter o fogo aceso) também como disse o Costas. Tudo isso num filme de emoção e sentimentos bem construídos ao longo do filme. Nada soa falso, mesmo o fim sendo considerado meio clichê por alguns amigos com quem discuti à cerca da narrativa.

    Pena o grande público se concentrar demais no (péssimo) “Alice no País das maravilhas” e no (morno) “Homem de Ferro 2″, porque por isso este filme deve sair de cartaz em breve.

    Grande filme! Assistam !

    Aloysio Roberto Letra

  • Lia diz:

    Eu amei o filme, que apesar de sombrio, escuro, feio, trás uma mensagem belíssima de amor incondicional de um pai pelo filho (ao contrário da mãe). A cena do ladrão negro nú e desarmado, ressalta toda a fragilidade do ser humano, numa nudez existencial. No final o besouro e o cão vivos, num mundo devastado, insinua que o mundo poderia, afinal, sobreviver à catástrofe. Belíssimo filme…impactante…imperdível…memorável.

  • simone mendes diz:

    gente… alguém reparou que algumas pessoas, inclusive o casal do final não tem o dedo polegar? será alguma alusão a alguma coisa?

  • Rafael diz:

    Acabo de assistir “The Road” e gostei muitíssimo do filme. Ele conseguiu me deixar aflito, pois é um futuro bastante possível ao meu ver. Confesso que fiquei de inicio chateado com algumas perguntas como: O que gerou aquele caos? Qual o destino final da criança? Mas a incerteza destes fatos tormam o filme ainda melhor, pois exige uma interpretação pessoal de cada um. e filmes do tipo “auto-explicativos” ao extremo são para pessoas que não querem se dar ao trabalho de pensar.

    O que achei de melhor: As paisagens perfeitas e a trilha sonora! Alias as paisagens e a música são quase personagens deste filme. A parte do velho e do ladrão são pra pura reflexão. maravilhosas!

    O que não gostei: Achei ruim o final, não que eu esperasse uma conclusão, mas ficou algo muito em aberto.Também achei um pouco exagerado e até sentimental ao extremo alguns diálogos entre o pai e filho, mas nada que comprometesse o filme.

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