Hot! Crítica: «Coriolano» – De Shakespeare a Ralph Fiennes

Adaptar uma peça de Shakespeare para o cinema é sempre uma tarefa arriscada. Os diálogos densos e a forma muito própria como dramaturgo transportava a intensidade para os seus romances exigem um trabalho de transposição bastante complexo. Mas adaptar um clássico de Shakespeare onde apenas estes mesmos diálogos se mantém, transportando toda a essência do romance para a contemporaneidade torna-se um trabalho duplamente árduo e arriscado. Foi essa a opção de Ralph Fiennes na sua estreia como realizador. O actor, fã confesso de Shakespeare e da peça Coriolano em particular, optou por iniciar-se nas odes da realização com a adaptação deste épico para os tempos modernos.

Em Coriolano não assistimos a lutas de espada em riste mas aos “puxar fogo” de armas e explosões em bairros degradados. Não existem trajes clássicos de tempos medievais, mas uma caracterização bem actual. É curioso assistir ao contraste entre o mundo contemporâneo e as trocas de palavras tão requintadas e tão típicas de outros tempos.

Caius Martius (Ralph Fiennes) é um aclamado soldado da cidade de Roma. Amado por uns, odiado por muitos, Caius acaba por ser involuntariamente subjugado ao poder político e por cair numa teia mediática que não abona a seu favor. O resultado é a sua expulsão da cidade pela qual sempre lutou e à qual promete vingança, mesmo que para isso tenha de unir forças com o seu maior inimigo, Tullus Aufidius (Gerard Butler).

É surpreendente a tensão que se sente do início ao fim do filme. As excelentes interpretações são sem dúvida o ponto forte desta adaptação e o que mais contribui para essa intensidade. Composto por grandes nomes, o elenco é, de parte a parte, bem sucedido. Destaque para a actuação de Vanessa Redgrave. É de suster a respiração a sua interpretação enquanto Volumnia, a poderosa mãe de Caius – numa das cenas finais, onde enceta um quase-monólogo, é impossível tirar os olhos desta veterana, tal não é o seu talento, aqui elevado ao expoente pelas falas ricas a que teve direito.

Quanto a Ralph Fiennes, diria que continua a estar melhor enquanto actor do que como realizador. Fiennes apresenta-nos um Caius Marcius imponente, ao qual não é possível ficar indiferente. A sua intensidade causa mesmo uma sensação de estranheza ao espectador, que nunca chega a amar ou odiar a personagem. Não é o típico herói nem o vilão da história. Rancoroso e arrogante, obriga-nos a afastar as convenções que possamos ter do “protagonista heróico”. Ao lado deste, a doce Jessica Chastain (que nos brinda com mais uma subtil actuação), o consagrado Brian Cox e Gerard Butler, que acaba por não ter tanta visibilidade como seria de esperar.

À vista desarmada (e com isto digo, vendo apenas o trailer) esperam-se de Coriolano duas coisas: acção e tensão. Mas, mais do que isso, espera-se o mínimo equilíbrio entre os dois pólos. Esta é talvez o lapso de Ralph Fiennes e o factor que o impede de ter em mãos um épico. Ainda novato nas lides de realização, Fiennes optou por manter-se fiel à tragédia shakespeariana: os diálogos são extensos e nem sempre fáceis de digerir, e é neles que se encontra a intensidade da história. Na peça resulta, no cinema complica-se – a adaptação exigia um maior desenvolvimento e articulação entre diálogos e cenas de acção.

Mas atenção, não considero os diálogos entediantes, bem pelo contrário, parecem-me deliciosos na boca de Vanessa Redgrave ou do próprio Fiennes, e revestem o filme da intensidade digna de uma adaptação de Shakespeare que tende tradicionalmente para o êxtase final. Mas são precisamente esses mesmos diálogos, ricos em metáforas e com um grande grau de fidelidade às falas da peça, que muitas vezes se prolongam em demasia (e valham-nos os bons actores que nunca se deixam desaparecer por trás destes!). Ora, não sendo a linguagem de Shakespeare a mais acessível, nem sempre é fácil para o espectador concentrar-se nas falas das personagens e absorver, ao mesmo tempo, toda a intensidade e paixão que Coriolano tem para dar. No entanto, ultrapassando este obstáculo, o filme torna-se uma sublime adaptação – metade clássica, metade contemporânea – que merece ser vista!

1 Comentário

  1. COMPLETAMENTE SEM SENTIDO. omg, sinceramente o pior de todos. o filme tenta refazer a tragedia de Shakespeare mas intruduz a historia nos tempos modernos, ficando linguagem do tempo em que cavalos tinham asas com soldados e tanques de guerra da atualidade. Nem é preciso explicar que resultou em uma bela merda.

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