Exclusivo: Entrevista a João Salaviza – “Gosto de correr o risco do real”

Depois de Arena ter ganho a Palma de Ouro em Cannes para melhor curta-metragem em 2009, o realizador português João Salaviza passou este ano por Roterdão com Cerro Negro e arrancou ao júri de Berlim o Urso de Ouro com a curta-metragem Rafa. A “Trilogia Acidental”, a que o próprio se refere, retrata um processo de metamorfose que é sintomático do interior desapropriado das personagens face ao seu ambiente externo. A fragilidade do Eu que procura, busca, e por vezes nada encontra. João Salaviza ultrapassa os limites da linguagem convencional e torna sensoriais os lugares, as pessoas e o movimento. Define linhas de cruzamento, por vezes ténues, entre a realidade e ficção. Filma e incute às estórias a (im)perfeição que, afinal, lhes pertence.
Nos teus filmes abordas sempre uma dicotomia, que é irónica, entre o indivíduo e a sociedade. Apesar destes dois filmes estarem associados não tens medo que o “Cerro Negro” acabe por ficar na sombra de “Arena” e “Rafa”?
O Cerro negro foi uma encomenda, mas uma encomenda daquelas bastante livres. Não me foram impostas grandes linhas, é fruto de algo que já tinha sido pensado por mim e que acabou por se adequar ao Programa Próximo Futuro da Gulbenkian. Este programa explora as questões da globalização focando-se especificamente no triângulo entre América-do-Sul, Europa e África. Debruça-se sobre nos fluxos migratórios e comerciais entre esses países, que no fundo estão a alterar a dinâmica interna de cada um deles. Há múltiplas abordagens possíveis a esta questão. Eu apresentei a minha ideia ao António Pinto Ribeiro, ele deu-me liberdade para avançar e acabei por realizar esta curta. Agora que cheguei ao fim apercebo-me que os filmes têm, afinal de contas, uma relação muito íntima que os faz circular um pouco à volta dos mesmos temas. É como se os três filmes fizessem parte de uma trilogia que começou com o Arena, mas é esta uma trilogia acidental que não foi de todo propositada. Acredito que o Arena e o Rafa, apesar de estarem a ter uma visibilidade maior devido aos prémios, possam gerar alguma curiosidade pelo Cerro Negro. Pelo menos é isso que espero que aconteça, gostava muito que o público percebesse esta espécie de diálogo que existe entre os três.
Quando falas em “Trilogia Acidental” não será mais do que isso? Não será que estes filmes constituem de certa forma os alicerces onde se irá fundamentar a tua obra enquanto realizador?
O ponto de partida de um filme é sempre um desejo, um impulso. E esse desejo às vezes está relacionado com motivos fúteis: uma determinada imagem que nos ficou na cabeça e que queremos filmar ou qualquer outra coisa mais específica que nós próprios procuramos mostrar. E acontece que, muitas vezes, o veículo que encontramos para falar de certas temáticas acaba por esconder os nossos objectos iniciais. Quando digo que é uma “Trilogia Acidental” tem que ver com o facto de que só agora, que olho para trás, sou capaz de perceber que as questões que me interessam estão bem definidas na minha cabeça. A verdade é que estes filmes não são mais do que o reflexo de uma procura exaustiva que me é própria, e que se vai repetindo. A minha procura acaba por se materializar em filmes que são diferentes entre si, mas que se fundamentam nas tais questões que me perseguem e que me fazem pensar. Contudo eu trabalho para que os meus projectos sejam sobretudo o resultado de uma ideia relacionada com um espaço e um tempo específico, que é o momento em que faço o filme. Por isso os meus guiões são sempre algo em aberto, gosto de ir para a rodagem com espaço para descobrir para além do que está escrito. Sinto que na minha longa-metragem vou andar à volta dos mesmos temas, obviamente explorando novas bifurcações, novas personagens… Mas apesar disso não há um programa definido por detrás destes filmes.
E foi essa a maneira que encontraste para “ deslocar o Cinema a sítios que normalmente não são filmados”…
Para mim, e no contexto da minha vida, o Cinema tem sido usado como um veículo que me aproxima de pessoas e de espaços. Há quem tenha outros pretextos, que são tao válidos como o meu. O Rafa é se calhar o filme que me é mais próximo, há muitas coisas em que identifico com a personagem e com o próprio actor que a interpretou. Mesmo quando isto acontece, quando filmo algo que me é próximo, acredito que depois disso é o próprio Cinema que reorganiza o mundo e faz com que as coisas acabem por transcender a própria realidade. O Cinema mostra afinal algo que não é realidade mas que também não é ficção. Assim quando falo em chegar a sítios aonde não chegaria de outra forma, esse sítio pode ser algo tao simples como a cozinha de uma casa. Não tem que ver com sítios geográficos mas sim com o campo das ideias, com lugares emocionais e sensoriais.
Nunca sentiste que os teus filmes poderão estar mais enquadrados no Cinema Documental do que no Cinema Ficcional?
Faço ficções com actores, mesmo que às vezes não sejam actores profissionais. Esses actores estão inseridos num contexto que é o filme, temos um número específico de dias de rodagem, que normalmente cumprimos, e há toda uma lógica de produção mais próxima da ficção do que do documentário. Contudo a mim interessa-me que o próprio processo de feitura de um filme não se sobreponha à vida. Que não se sobreponha àquilo que é verdadeiro, às imperfeições e às impurezas que a vida contém. Eu gosto que tudo isso permaneça dentro do filme, e a câmara de filmar só terá a vitalidade que me interessa se não destruir aquilo que está à minha frente. É por isso que gosto muito que nos meus filmes aconteçam acidentes. Gosto de correr o risco do real: o actor enganar-se no texto ou um figurante passar à frente da cena num momento em que não era previsto. No Arena uma das imagens que mais me agrada é a da velhinha que aparece na ponte durante a cena da bicicleta, e que inicialmente não era suposto aparecer. Cada vez mais me apercebo que aquilo que mais gosto nos meus filmes são precisamente aqueles pormenores que me escaparam. Pormenores que aconteceram ou por acaso, ou porque tinham que acontecer. Percebo cada vez mais que o meu trabalho enquanto realizador não é apenas o de determinar que certas coisas aconteçam mas também o de abrir espaço para que novas outras se desenvolvam. É por isso que há quem diga que os meus filmes têm alguma relação com documentário, mas apesar de tudo não deixam de ser ficções.
É essa adrenalina de “correr o risco do real” que, no caso do “Rafa”, te fez optar por usar um actor não profissional?
É o ligar a câmara sem fazer a mínima ideia do que pode acontecer, tendo a consciência de que é preciso saber lidar com a frustração do que daí pode resultar. É tal qual como quando nos sentamos numa esplanada do café a observar as pessoas, permanece sempre a certeza de que, se estivermos com atenção, em algum momento irá acontecer alguma coisa incrível. Foi um pouco isso que me aconteceu ao trabalhar com o Rodrigo, o actor que faz o Rafa, quis permitir que ele existisse diante da câmara. Antes de ele estar a representar, ele está a existir. E é a presença de alguém diante câmera que me interessa captar.
E foi isso que também cativou o júri em Berlim?
Depois da cerimónia falei com os membros do júri e disseram-me que tinham gostado muito do facto do filme ser minimalista, deixando muito espaço para o espectador participar nele ao nível emocional e intelectual. Por outro lado também os cativou a viagem que é feita com o próprio miúdo durante o filme. Tentei sempre que houvesse uma certa justiça entre o que ele vê e aquilo que o espectador vê, o que na prática é a mesma coisa. Por exemplo a figura da instituição da polícia, que tem um peso enorme no filme, acaba no final por ser algo praticamente invisível. Isto é devido, apenas e só, ao facto de que o próprio miúdo também não os consegue ver. E foi esse jogo entre a representação e a não representação, o que se mostra e o que não se mostra, que me interessou a mim e que pelos vistos interessou ao júri. Contudo acredito que os prémios são algo aleatório e muito subjectivo.